Sexta-feira, Abril 07, 2006

Nova esquina

Sim, sim, está na hora de mudar de esquina, aos que se interessem novos textos, fotos e provavelmente o arquivo de tudo o que passou por aqui está disponível em

http://web.mac.com/iuridantas

E não se assustem com o 3x4, ok?

Domingo, Março 19, 2006

Please, please...

Sr. ou Sra. Anônimo-de-Tal,

Perdoe-me se pareci abrupto e impaciente. Seus comentários fizeram-me apenas pensar, refletir sobre a ausência da melancolia. Se prometer mais visitas, prometo visitá-la proximamente.

Fechado?

Sexta-feira, Março 17, 2006

Das anônimas sugestões...

O Anônimo-De-Tal deixou um recadinho logo ali embaixo, dizendo que "gostava mais quando a aventura era pelo país do conto, das idéias tristes, daquela coisa incompreensível pelo excessivo tom melancólico".

E terminou com uma sugestão. "Não deixe a profissão ser tão importante a ponto de matar isso em vc".


Bem, a profissão sempre e quase nunca é importante. Mas definitivamente, não tem capacidade para assassinar melancolias. Talvez o tempo faça isso.

Talvez?

Domingo, Março 05, 2006

É a guerra, estúpido...

Como não poderia deixar de ser, a invasão do Iraque e o conseqüente atoleiro em que se meteram as tropas norte-americanas será um dos principais temas de debate nas eleições de meio de mandato que se realizam neste ano nos Estados Unidos.

No front republicano, começam a pipocar vazamentos aqui e ali sobre informes de inteligência dizendo que sim, Saddam Hussein, pobre e estrangulado pelo embargo, desenvolvia um programa de armas de destruição em massa, mantinha relacionamento de perto com Osama Bin Laden e tinha papel preponderante em apoiar terroristas no Oriente Médio. Pode ser Karl Rove plantando das suas, informes de inteligência costumam ser aqueles relatórios que ninguém vê, mas todos os oficiais envolvidos confirmam OFF the record.

No front democrata, o apelo pode ser maior porque novo. Algumas dezenas de soldados que voltaram da guerra insatisfeitos com o que fizeram e viram por lá já se alistaram como candidatos ao Congresso. Para um partido que não sabe responder aos ataques da Casa Branca de que não sabe lidar com assuntos de Segurança Nacional talvez venha a calhar.

A questão toda, porém, vai além. As eleições não devem ter muita competição, em muitos Estados os Republicanos modificaram a lei de desenho dos distritos eleitorais facilitando a vida de seus candidatos. 

E, obviamente, ninguém fala que talvez os insurgentes tenham razão. Não foi o mesmo que fizeram George Washington e companhia lá em 1776 para se livrar da força imperialista dos britânicos?

Funeral

Aproveito o último fósforo da caixa para acender a primeira vela. Cá entre nós, já passou da hora de enterrar esse tal de pós-modernismo. 

Morto por morto, está faz tempo.

Sábado, Dezembro 24, 2005

Conto natalino de uma nota apenas sobre a eternidade da vida e da morte, as mudanças e as circunstancias, somente parentesis do tempo

Começou em criança a amar os números, ao sonhar bailava com eles sob a chuva. Contagem progressiva. Na adolescência, adotou as palavras, poesias que a faziam rodopiar no espaço vazio. Cresceu, embarcou no avião. Preferiu os rostos às letras. Lia-os, decifrava melhor. O rosto do homem que a fez chorar. Do outro que a ensinou a sorrir. Do terceiro que apresentou sorriso e lágrimas em seu silêncio. Concebeu. E a pequena criatura obrigou a recomeçar. Novamente os números, nos dedos minúsculos, nas fotografias, na escolinha. As palavras de suas poesias mesmas que as de antes. E nos amores. Empalideceu. Contagem regressiva. Deixou o planeta, transmutada no coração dos que deixou para trás.

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Piramide invertida

Esclarecendo, ainda estamos no outono, as folhas caem e a temperatura faz looping todos os dias. Há três luvas, um gorro, dois casacos e o jornal de domingo em cima do sofá, just in case.

Indo às batatas, esta apenas uma advertência. Não se enganem com jornalistas. Ando a pensar sobre isso, mais do que deveria para ser bem sincero, andam sempre entre oito e oitenta. Os melhores a se criticar. Os piores, tecendo loas sobre suas aventuras inimagináveis.

Não raro esbarro em que se classifica entre os primeiros, ok, ok, ok. Não vamos insistir muito em nomes, porque estes sempre há em abundância. Aqui e ali, estão sempre a desafiar o bom senso com exemplos estapafúrdios. Consideram-se 80, mas na maioria das vezes nem valem o 8 que recebem.

Os melhores, até em mesa de bar, vivem a reclamar que estão no grupo dos 8. E merecem bem mais do que isso. Uns poucos silenciam, são bons, inteligentes, criativos. Minha nossa, se meu vício em elogiar os amigos não fosse controlável veriam uma lista enorme aqui.

Enquanto isso, eu mesmo? Bem, a vida anda complicada o suficiente para cair em auto-armadilhas. Deixemos o dito pelo não-dito.

Domingo, Novembro 27, 2005

De novo as esquinas

Nevou faz só uma semana, andei o dia inteiro, lembrei que faz tempo que aqui não vai nada. Sobre os amigos que perdi-deixei-esqueceram-me. A cidade não é mais a mesma de quando essas Esquinas nasceram, nem as esquinas importantes o bastante, o nome deveria mudar para memórias-paranóias-pensamentos-fixos na caverna do porão onde vivo. Ou basement. Ah, sim. Esta a principal notícia.

A língua. A brava e resistente língua de Camões cada vez mais inatingível, faz tempo que não leio poesias, as palavras uma e outra aparecem sempre em outro idioma, pobre por desconhecimento. Quem desvenda vocabulários em livros? Outro me disse que desistiu de ler os volumes e desperdiçou o verão a ler as faces de estranhos... Sebastião, para quem conhece.

Pois então. Faz tempo. Que não penso sobre nada disso, sobre a necessidade premente de descobrir o tom nas palavras de outros, por isso as músicas, os livros ou as películas. Por isso o silêncio tão forte na língua portuguesa. Ou foi a pressão-interna-decibéis-milimétricos que em termos simples resulta preguiça, diverge o olhar para os quatro cantos.

Porque essa necessidade sempre presente. Entender um pouco mais anulando-se, dois olhos apenas não vêem o que ali está, melhor ampliar os primas, contorcionar os focos, por isso a música. Ou os filmes. Ou um livro aqui, uma poesia solta, uma notícia de jornal.

Ao retomar o caminho percebo a esquina logo ali. Daí o nome deste espaço. Daí o silêncio quebrado. Daí o que vem depois.

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

Corrupção

É terrível viver num país em que:

- A reconstrução das maiores catástrofes fica a cargo da empresa do vice-presidente, em contratos sem licitação

- O principal assessor político do presidente cuida de vazamentos de informações sigilosas do governo como forma de responder a ataques políticos, não importa se uma servidora federal passa a correr risco de morte na empreitada só porque seu marido ousou desmentir a administração

- Uma repórter passa mais de 80 dias na cadeia por se recusar a revelar sua fonte jornalística

- Um assessor do vice-presidente repassa segredos de Estado para outro país

- A Polícia Federal pode entrar na sua casa, vasculhar sua correspondência, grampear seu telefone e você nem é informado pela Justiça

- O líder do governo na Câmara dos Deputados pede afastamento do cargo porque usou expedientes ilegais para financiar campanhas políticas de todo um Estado

- O líder no Senado tem vida mais tranquila. Precisa convencer a todos que não usou informações privilegiadas de sua empresa para evitar um prejuízo imenso quando a companhia pediu falência. Coincidentemente, ele vendeu as ações dias antes

- Depois de um desastre natural de proporções gigantescas, o governo federal demora dias para enviar ajuda humanitária e pessoas morrem por falta de atendimento médico ou afogadas em casas submersas

- Mas anuncia em segundos o nome do novo presidente da Suprema Corte, mais conservador que todos os outros

- O presidente lança uma guerra contra um outro país, com base na presença de armas gigantescas e devastadoras. E a ligação com terroristas. Três meses depois, a capital é conquistada. Nenhuma arma encontrada. Começa a ocupação e então os terroristas se deslocam para o país para protestar contra a presença estrangeira

- E o novo governo elabora uma nova Constituição, reduzindo ou eliminando mesmo os direitos das mulheres

- Empresas gastam bilhões por ano para convencer congressistas a votarem leis de acordo com o que elas pensam, e não seus eleitores que cometeram o erro de acreditar no que diziam

- As vítimas, seja de crimes, desastres, mortes em combate, são em grande maioria negros e pobres

- As pesquisas mostram a decadência cada vez maior da educação. Estudantes de classes iniciantes se saem melhor nos testes do que alunos de séries avançadas. Conclusão: as escolas tornam as pessoas menos inteligentes com o passar do tempo

- Todos sentem medo de sair nas ruas, não por conta de assaltos ou balas perdidas, mas de atentados terroristas que o governo insiste em repetir que estão próximos. Cada dia mais próximos

Sim. Realmente terrível.

A passeio ou a trabalho

Ninguém desconfia por que diabos a Polícia Federal envia seis sujeitos para analisar quatro caixas de documentos em Nova York? Papéis que chegarão a Brasília, onde trabalham estes seis sujeitos, em menos de 15 dias?

Não. Eu desconfio.

Nova York te arrebata no primeiro cheiro, mas isso não é motivo para seis servidores federais lançarem mão de dinheiro público para tarefas burocráticas que poderiam ser feitas no coração do Brasil, na capital federal.

Será que ninguém questiona por que esses seis policiais passam cinco dias em Nova York e só começam o trabalho que foram fazer no quarto dia? Estranho. Esquisito. Deplorável.

Podem até colocar a culpa em promotores nova-iorquinos. Talvez eles nem liguem para isso. Deve ser porque não eles que pagam a conta.

Alguma coisa está fora da ordem...

Há algo muito estranho quando o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica ganha o prêmio Nobel da Paz.

Porque já se torna comum esperar a próxima bomba. E elocubrar sobre o dia em que nossas vidas mudarão para sempre, quando as imagens de televisão apresentarem um cogumelo terrorista em alguma parte do planeta.

Definitivamente.

Domingo, Setembro 18, 2005

Depois do furacão



Casa destruída em Pascagoula, pequena cidade destruída pelo furacão Katrina no Mississipi.

Domingo, Julho 24, 2005

Perguntar ofende.

Rascunhando uma entrevista exclusiva com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

- Por milênios José Alencar ocupa um ministério importante sem nada apresentar de concreto. E, enquanto outras carreiras federais regozijam-se com seus parcos aumentos, os militares franzem as sobrancelhas. Até quando o sr. manterá um ministro-tampão na Defesa?

- Por que o sr. aceitou a demissão do ex-diretor da Abin Mauro Marcelo de Lima e Silva em vez de obrigá-lo a se retratar com o Congresso? Por falar nisso, a Abin ficará sem chefia? Geralmente isso não termina nada bem...

- Depois de ver a entrevista de Bob Jefferson, as confissões de Delúbio e Valério, o PT merece algum crédito (perdão pelo trocadilho) de confiança?

- O sr. foi eleito com um discurso muito bonito mas nada fez na prática. Educação, reforma agrária, saneamento básico e outros programas tão bem delineados no plano de governo não saíram do papel. Só se viu mais do mesmo. Sinceramente, o sr. possui vergonha na cara?

- Se o PT usava fundos ilegais e por 20 anos o sr. sobreviveu graças aos proventos do partido, como o sr. classificaria sua participação neste esquema: sócio, beneficiário, vítima das circunstâncias da vida ou cúmplice?

- Levando em conta que o partido levantou dinheiro ilegal, quem, em última instância, pagou por seus ternos caros, seus óculos milionários, suas viagens, churrascos e todo o etecétera?

- Sei que essas acusações devem ocupar boa parte do seu tempo. Em que desculpas esfarrapadas o sr. anda pensando para lidar com a situação?

Elocubrando

Não lembro onde li que à História interessa varrer alguns momentos para debaixo do tapete. Ou qualquer coisa assim. Obviamente lembrei da sujeira sobre o PT que se tornou rotina nos diários brasileiros. Vendo de longe, há uma sensação estranha.

Por mais jovem que seja a democracia brasileira, conseguia sentir que estava participando ativamente de todos os processos enquanto trabalhava em Brasília. Agora, vem esse sentimento esquisito de que tudo escapa das minhas mãos, de que não tenho o que fazer. Mais: que qualquer ato meu em nada afetará o processo.

Obviamente, deriva de uma arrogância e prepotência "naturais" de repórter.

Estou pensando desde ontem na possibilidade de Lula deixar o cargo. Retirar-se da cena política, coisa e tal. E surgiram algumas conclusões, talvez nada que interesse, mas vamos a elas.

Na minha humilde e desnecessária opinião, o presidente deveria terminar o mandato. Ainda não há nenhuma prova concreta de sua participação direta no caso mensalão, por mais que provas concretas desse tipo de coisa não existam. Ademais, todo o esquema visava um pragmatismo exacerbado de aprovar o que ele considerava melhor para o país, sabe Deus o que isso significa, e que, no fim das contas, a maioria do eleitorado aprovou como seu então programa de governo durante a campanha.

Muitos dizem que a crise atual é pior do que a de Collor. Talvez seja, por trazer a público algo que todos imaginavam corriqueiro. Mas FHC foi preservado na compra de votos para a reeleição e no escândalo grampo do BNDES-privatizações.

O meu ponto é o seguinte:

- Em 1992, com a ditadura e a as mãos atadas do cidadão ainda ressoando na cabeça dos brasileiros, era importante para a democracia brasileira verificar que o eleitor conseguia eleger e derrubar um presidente. Foi uma redenção depois de décadas sem participação política alguma. Um êxtase democrático na plenitude. Digo isso porque certamente a maioria da população não tomou conhecimento de todo o esquema montado por PC Farias. Muitos ouviram dizer em conversas de botequim, ouviram uma frase ou outra no Jornal Nacional. Somente um grupo pequeno da elite compreendeu toda a lama que Collor jogou no país.

Mas para uma democracia complexa e ressuscitada como a do Brasil em 1992, era importante derrubar o presidente. Isso consolidava o processo, permitia que o povo se desse conta do quanto ele podia avançar.

E talvez hoje isso não seja necessário. Ou mais ainda, talvez hoje seja necessário permitir que Lula termine o mandato.

O julgamento do eleitor, no caso de Lula, deveria ser, novamente na minha humilde e desnecessária opinião, nas eleições de 2006. Depois de anos sem decisão política subjugado pelos militares, uma tentativa fracassada de dar início a dias melhores, com Collor de Melo, e a continuidade de oito anos de uma administração aprovada pela maioria, com FHC, tivemos uma alternância no modelo político. O país elegeu um partido cuja visão parecia ser diferente do status quo, que propunha mudanças.

Foi a primeira vez que isso aconteceu na história brasileira. E o presidente eleito recebeu o cargo de outro, também legitimamente eleito, em um processo de transição minimamente transparente, noves fora os detalhes de sempre.

Agora, a democracia novamente enfrenta um teste importante. Talvez seja mais necessário para nosso futuro como país permitir o naufrágio das propostas de Lula, sem expulsa-lo do Planalto, do que interromper o processo. Se tais denúncias, cujas provas repito são quase impossíveis de se conseguir, forem absorvidas pela maioria da população, Lula e seu PT serão banidos do Planalto. Senão, enfrentarão um segundo mandato imprevisível.

Elocubrando mais ainda: digamos que a população volte ao modelo neoliberal de FHC e companhia. Digamos que haja outra transição de poder civilizada. E que depois de um terceiro mandato tucano o povo novamente escolha mudar e vote em outro. Ora, meus caros, é isso que acontece na democracia, n?est pas?

Se à História interessa apagar o PT e jogar sua sujeira para debaixo do tapete, interrompendo um processo político, por que não desafiar o que se espera e obrigar Lula a enfrentar os 365 dias de 2006 no cargo?

Sexta-feira, Julho 22, 2005

Sobra o Itamar...

Sempre difícil para um jornalista confessar predileções políticas, esportivas, culturais ou coisa que o valha, ainda viceja aquela falsa noção de que independência e isenção significam mentir descaradamente ou omitir silenciosamente o que pensa ou sente. Levando isso em conta, confesso um pouco de decepção e frustração. Lógico que vou falar um pouco do PT e de seus caciques, sim, hoje em dia podemos usar o malfadado adjetivo para descrever algumas das lideranças do partido.

Decepção com políticos é algo normal. Collor não conta, pois já se via desde muito antes que o sujeito não estava ali para brincadeira, que representava o que de pior poderia haver na política nacional e do Nordeste. Ainda por cima, contava com o apoio maciço de uma Rede Globo ainda acostumada ao monopólio da verdade adquirido durante 20 anos de ditadura militar. Da emissora que se fala aqui, não de alguns de seus profissionais que ainda hoje são exemplos a serem copiados humildemente por profissionais em início de carreira, como este aqui. FHC aderiu antes de chegar lá. Por sua história, pelos livros que havia escrito e os pensamentos que desenvolveu, poderia se esperar mais. Que não fechasse aliança com Antonio Carlos Magalhães um ano antes de sua posse por exemplo. Pois é. O primeiro a abraçar o candidato foi "Painho". Diga-me com quem andas e te direi o que farás com um país machucado.

Por isso não foi enorme a surpresa de ver as privatizações mal conduzidas, o desprezo pela parte social, a submissão em demasia às regras, ao Consenso de Washington (lembram-se?). E tivemos então, em 2002, a eleição de Lula. Desembarquei em Brasília em junho de 2002. Havia, como em todos os outros inícios de campanha presidencial desde 1989, um certo favoritismo em relação ao petista. Dizia-se que sua eleição dependeria muito mais da competência tucana do que suas propostas. Vimos as propagandas brilhantes de Duda Mendonça, os olhos azuis de Chico Buarque, o medo de Regina, as grávidas em roupas brancas. Emocionante, democracia a 220 volts, todos os dias uma grande notícia, um sentimento saudável de ser brasileiro mesmo sem Copa do mundo, que aliás foi naquele mesmo ano e a seleção canarinho levou o caneco. Tudo ia bem. Bem demais.

Já na transição, com a discussão da política econômica, o absurdo e inútil superávit primário de 4,25% do PIB, o texto das reformas, as alianças inimagináveis com os 300 picaretas, Sarney mandando e desmandando, ACM voltando aos spots, a ingenuidade marqueteira da Polícia Federal, absoluto descaso com a Educação, reforma agrária no papel, direitos humanos baseados em notas de repúdio, falta de dinheiro para saneamento básico e construção de casas, aparelhamento de bancos estatais pelo partido. Tudo isso foi mostrando que os petistas não eram bem o que se imaginava, ou o que Duda Mendonça havia vendido na campanha.

Paciência, ao menos a democracia seguia em frente, havia alternância de poder, precisamos passar por isso muitas vezes, o país melhora, dizem.

E veio o caso Waldomiro Diniz (lembram-se?). Pois é. Não quero advogar a defesa de um sujeito que consegue mentir durante uma década para a própria esposa e que passou por duas cirurgias plásticas apenas para manter sua vida política. Nem é meu papel julgar o que ele fez antes da Casa Civil, esse José Dirceu de Oliveira. Mas um escândalo como o de Waldomiro Diniz terminar nas mãos de um delegado incompetente e boquirroto foi a gota d`água. Por sinal, o inquérito ainda está em andamento. Um ano e meio depois _fez aniversário no dia 13 de agosto.

Até aí, porém, havia ainda a impressão de que se cometia erros monumentais, pelo menos Dirceu agia em interesse do país, não procurava se locupletar, mas aprovar as reformas, dar andamento ao governo, mal e tropegamente. O excesso de um pragmatismo político visando fins históricos que justificassem meios execráveis. Fazia parte da política? Era a maneira certa? Novamente, a história julgaria tais delitos dali a dois anos, na próxima eleição.

Agora, vem essa história do mensalão. Acabo de ler uma análise do Financial Times sobre o assunto (leia versão da Folha Online aqui). E eles são pródigos em descrever os protagonistas. José Genoino, que, reza a lenda, pegou em armas contra os militares, deixou a presidência do partido. O mesmo Dirceu se segura para não perder um cargo. Por quê? Que mais ele espera fazer no Congresso?

As velhas raposas do PFL se eriçam, clamam por Justiça e Ética, como se não fosse risível. Ao menos na oposição, sem denúncias porque não havia chegado à presidência, o PT podia bradar nos microfones, ocupar a tribuna e prometer dias melhores. Agora nem isso. Estamos todos com os parafusos tortos, jornalistas, políticos, sociedade. Cabe aos fariseus tratar as chagas?

Até 2004 ainda acreditava no PT e em alguns de seus líderes. Em Lula menos, por cautela natural, mas o sujeito andava em boas companhias. De lá pra cá, só descemos a ladeira. E abram o olho: com a enorme possibilidade de um processo criminal, o sr. Márcio Thomaz Bastos, advogado por 45 anos e razoável ministro da Justiça, já cantou a dica, leva-se tudo para a Justiça Eleitoral. Algumas multas e sanções administrativas depois dá-se trato à bola e recomeça o jogo. Ninguém na cadeia.

De longe, é ainda mais triste ler o noticiário. Ver como os jornalistas se agarram aos fatos e ao palpável porque não sabem o que dizer. Repisam e repetem as decepções, como se toda a sociedade só conseguisse pensar nisso. Até a Sheila Mello, uma bunda falante, escreveu em seu blog que não agüenta mais isso.

Depois de tanto lero-lero, faltou falar de um presidente. Itamar Franco, quem diria, debelou a inflação, topou um governo de coalizão nacional, elegeu seu sucessor e passou incólume pelo Circo Brasil. Acusem-no de indiscrição com as namoradas, ao menos crime menor do que destruir a esperança de uma geração de brasileiros.

Segunda-feira, Julho 18, 2005

E no bichinho atrelado ao ouvido, Gilberto Gil canta o que Torquato escreveu faz tempo, mas faz tanto tempo e sentido que vale a pena reler. Invariavelmente acertava errando pelas bordas da vida, errando por aí, esse Torquato.

Desde que saí de casa,
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão,
enterrada no umbigo,
dentro e fora assim comigo,
minha própria condução.

Todo dia é dia dela,
pode não ser,
pode ser.

Abro a porta e a janela,
todo dia é dia D

Há urubus no telhado
e a carne seca é servida,
escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa,
só escapo
pela porta da saída.

Todo dia é mesmo dia,
de amar
de a morte
morrer.

Todo dia é mais dia,
menos dia,
é dia D

Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão,
enterrada no umbigo,
dentro e fora assim comigo,
minha própria condução.

Quinta-feira, Julho 14, 2005

O foco da notícia

Investigadores, como policiais, procuradores, promotores, fiscais, e mesmo assessores de imprensa, sempre se preocupam em descobrir quem agiu como fonte de determinada informação, quando a publicação dela em um jornal traz dificuldades de ordem prática no dia-a-dia.

Foi o que ocorreu por aqui com a divulgação da identidade de uma agente disfarçada da CIA, a ex-poderosa agência central de inteligência do governo norte-americano. No ano passado, um colunista do Washington Post disse que seu marido, um embaixador dos EUA, obtinha informações sobre armas de destruição em massa com a própria, Valeria Plame.

Os colegas correram pela notícia e descobriram o nome dela. Mathew Cooper, da revista Time, e Judith Miller, do NY Times, publicaram a notícia, com nome e sobrenome. Até aí, faz parte do jogo. A Casa Branca negou que qualquer empregado seu estivesse enrolado no vazamento. E a procuradoria arregaçou as mangas para descobrir de quem se estava falando.

O grande erro de todos que pressionam jornalistas por sua fonte sigilosa demonstrou-se mais tarde. Em minha curta experiência acompanhando a Polícia Federal e o Ministério Público do Brasil, descobri que o mais difícil não é obter a informação, mas comprová-la. Na maioria das vezes, e isso está previsto na maior parte dos manuais de redação do mundo inteiro, a estatura da fonte e o histórico de informação críveis que ela dá já são suficientes para dar legitimidade ao que diz. O que não deixa de ser um tremendo risco para os jornalistas, não é só porque um diretor da PF sempre dá boas informações e ocupa um cargo na cúpula da instituição que podemos publicar absolutamente tudo o que ele diz.

Mesmo assim, na correria da rotina, quando obtemos uma confirmação de uma fonte de alto escalão, mastigamos os detalhes e enviamos o texto para a rotativa. No dia seguinte, não é raro ver que o próprio desmente publicamente em uma entrevista coletiva horas depois de te congratular por telefone.

Esses desmentidos oficiais acabam gerando nos assessores de imprensa e investigadores a falsa sensação de que a reportagem não existe. Foi inventada. No caso de Valerie Plame, nem isso. Todos sabiam que a história estava correta, mas não quem foi o responsável por alertar os jornalistas.

Uma corte daqui determinou que Miller, do NY Times, e Cooper, da Time, dissessem quem era a fonte da informação. Até aí, uma loucura para um país cuja primeira e mais importante emenda à Constituição fala sobre liberdade de expressão. O mundo está de ponta cabeça, aproveitou-se o juiz.

Miller foi para a cadeia. Passará uns quatro meses encarcerada por respeitar seus princípios. Faz sentido, e é fácil dizer que em seu lugar qualquer jornalista de caráter faria o mesmo. Se for para ficar aqui fora sem valores, regras e credibilidade com suas fontes, melhor tirar férias numa cela.

O mais interessante da história toda vem agora: o autor do vazamento, segundo um e-mail que consta como prova no processo, é nada mais nada menos que Karl Rove, um dos auxiliares diretos mais próximos de George Walker Bush. O advogado de Rove permitiu a Cooper, que testemunhou ontem perante o júri, a divulgação de tudo o que o jornalista entendesse necessário.

Divulgada a fonte, muda o foco da notícia.

Descobriu-se que não se tratava de nenhum araponga da CIA insatisfeito com a Casa Branca, ou um membro da comunidade de inteligência que desejava sabotar o governo Bush. Mas um homem de dentro, do núcleo do governo. Qual o interesse dele?

Como o marido da agente Valerie Plame agitava os jornais com negativas sobre as armas de destruição em massa no Iraque, dizia que não fazia sentido e que os discursos de Bush eram falsos, interessava à Casa Branca desacreditar publicamente as críticas. Por mais absurdo, porque no fim das contas provou-se que Bush estava realmente errado.

Sobrou para o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan. No ano passado, havia zombado das suspeitas sobre Rove. Classificou como ridículas as insinuações e disse claramente que se houvesse alguma participação do auxiliar de Bush no vazamento, o chefe ficaria feliz em demiti-lo. Quando veio a tona o e-mail e as suspeitas ainda mais fortes sobre Rove, o porta-voz calou-se.

A Casa Branca não emitira opinião sobre uma investigação em andamento. Perguntado se mantinha o que havia dito meses atrás, repisou o discurso decorado. Vamos aguardar o fim das investigações.

Bem, se a todos interessa saber quem é a fonte da informação em vez de questionar se a reportagem é verdadeira ou falsa, colham agora suas batatas. O mesmo acontece em qualquer outro lugar, se damos início a esse tipo de investigação.

Jornalista costuma ser apenas o meio de transporte da comunicação. Se algum governo, e isso vale para qualquer governo, fica furioso com uma reportagem e decide processar o jornalista para descobrir sua fonte, pode ir se preparando. Não são os jornalistas que possuem informação, mas os próprios auxiliares do presidente, de seus ministros, pessoas com quem os governantes convivem de perto e em quem confiam.

O sigilo da fonte não serve para proteger o jornalista. Mas para assegurar que a informação virá a público sem prejudicar quem contou o segredo, apenas aqueles que fizeram algo errado. Uma bela lição para a democracia norte-americana. Tomara que o Brasil a copie neste caso lamentável. E que pelo menos o governo Luiz Inácio Lula da Silva, com seu batalhão de assessores de imprensa, responda às denúncias em vez de se preocupar com quem disse o que para o repórter tal.

Depois de 30 e poucos anos, descobrimos que o Deep Throat, ou o Garganta Profunda, fonte do Washington Post durante a crise do governo Nixon, era o segundo homem na hierarquia do FBI. Quem mais teria informações tão importantes? Diferentemente do caso de Valerie Plame, os jornalistas permaneceram firmes, a fonte continuou secreta, o presidente caiu, os repórteres ganharam o Pulitzer, Garganta virou personagem de filme e agora vai ganhar milhões com seu livro.

Deixando a ingenuidade de lado, por mais que esse caso seja exemplo de capitalismo e da indústria da mídia, melhor assim do que ver prisões confinando repórteres somente pelo tamanho de seu caráter.

Sabe o que é mais irônico? Hoje o USA Today diz que talvez Valerie Plame estivesse o tempo todo em DC, desde junho de 1997. A divulgação de seu nome, portanto, não seria crime nenhum de acordo com as leis norte-americanas. Belo motivo para um recurso do advogado da repórter do Times...

Terça-feira, Julho 12, 2005

terror

Na semana passada, a Time publicou uma entrevista com um jovem de 25 anos, ansioso, máscara no rosto, que aguarda impacientemente o momento de ir pelos ares e levar tantos infiéis quanto conseguir para o outro lado.

Na quinta-feira passada, o prefeito de Washington DC, Anthony Williams ocupa longos 20 minutos na TV para pedir que as pessoas continuem vigilantes mas não permitam que os terroristas mudem seu modo de vida. Vivam, amem, sejam felizes, aproveitem a vida, disse o sujeito.

No mesmo dia, um imã londrino pediu à sua comunidade que auxiliasse as autoridades na procura pelos suspeitos do ataque. Na 14th street, um engraxate berrava aos transeuntes que não permitissem que os terroristas os deixassem com os sapatos sujos, dois minutos e cinco dólares.

Há duzentos anos, Issac Newton descobriu algumas leis da física. A cada ação corresponde uma reação de mesma intensidade e sentido contrário. Se levada ao pé da letra, as bombas que explodiram até agora são apenas o começo de um longo processo.

O mundo globalizado permitiu a aplicação da lei de Newton em escala planetária. O míssil disparado em Falluja, ressoa em Grosvenor Park. Simples assim. Houvesse ocorrido antes, teríamos visto vietcongues explodindo a bolsa de valores.

Mas ainda há uma desarmonia de forças, uma enorme diferença em favor do Ocidente. Mesmo assim, não se vêem tentativas de assassinar um presidente ou um primeiro-ministro. Mas pessoas comuns.

Essa talvez seja a forma terrivelmente sincera de mostrar a quem vive deste lado do Atlântico que quando a fumaça sobe em Bagdad e Saddam Hussein é encontrado apodrecendo num buraco, isso não significa uma ação militar cirúrgica. Mas a destruição de uma sociedade, o seqüestro da rotina pacífica de milhões e milhões de pessoas que não guardam relação alguma com o que seus governantes fazem por lá.

Talvez eliminar vidas inocentes em Londres, Madrid, Nova York, seja uma forma de dizer simplesmente que agora eles fazem com as grandes potências o mesmo que elas fizeram a seus países. Apenas talvez.

Ouvido mouco

Pois de nada adianta falar tanto, talvez essa seja a angústia da imprensa brasileira em relação ao "governo" de Luiz Inácio Lula da Silva, desde o primeiro dia criticava-se o amplo aspectro de alianças, o toma-lá-dá-cá com emendas no Orçamento para aprovar reformas que nem merecem esse nome. Só para lembrar, de todo o projeto de governo de Lula, aprovou-se apenas a reforma da Previdência, mirando mais nos funcionários públicos do que no bando de gente que recebe sem contribuir ou no déficit que se instalou por lá.

Enfim.

Agora me chega a notícia da "reforma ministerial", sim, sim, entre aspas porque ninguém é de ferro. Eis que saiu Nilmário Miranda, dos Direitos Humanos, ficou o Gushiken como subordinado de Dilma Roussef e outras mudanças aqui e ali. Ao PMDB, a Saúde. Jucá, alguns meses atrasado, deixa a Previdência.

Adianta continuar dizendo que "reformas" como essa são inúteis, insuficientes, belos placebos de antídoto para uma crise gigantesca?

Lula permanece isolado e confiante de que "nunca na história desse país um governo fez tanto". Se desde o início as críticas diziam que havia muitos petistas, que todo o aparato estatal havia sido partidarizado, que os auxiliares de Lula não sabiam orientá-lo. Se tudo isso foi dito e de nada adiantou, por que voltar ao tema agora?

Tenho minhas sérias dúvidas se Lula lê jornais, por exemplo. E se os lê, se absorve alguma coisa. Será possível que todos, absolutamente todos estejam errados e o barbudo, certo?

Não sei. Não esperava a saída de Nilmário Miranda. Primeiro porque pouco muda na conjuntura política atual. Segundo, porque até que fazia um bom trabalho, dadas as limitações e algumas de suas idiossincrasias. Terceiro, porque é apenas o ministério dos direitos humanos.

Sobre o Ministério da Defesa, que segue ocupado pelo vice-presidente José Alencar, ninguém fala. Será que esqueceram?

Mas, novamente, de que vale falar nisso mesmo?

Domingo, Julho 03, 2005

Spinning between DF and DC

Mês e pouco longe de casa, segue um relato insignificante desde o desembarque em Dulles no dia 27 de maio.

À primeira vista, há um sério incremento de vocabulário. Ao chegar em qualquer cidade norte-americana, em especial a capital da paranóia, esteja familiarizado com as palavras fence e barricade. Não há posto que não exiba as duas. Em Washington as exigências de segurança são meio esquisitas. Em frente aos prédios do governo há uns imensos vasos de planta, meio que um metro e meio de altura.

Reabriram ontem o obelisco, The Washington Monument. Depois de meses de reforma, incluíram uma base de granito e um reforço por toda a estrutura. Assim, dizem, ficará mais fácil resistir a bombas ou aviões. Mas não seria mais simples e econômico levantar outro se ocorresse um atentado?

Se você não tem um cartão quente de identidade, e a identificação de jornalista estrangeiro é um desses, esqueça os passeios turísticos. Melhor ver a Casa Branca e o Capitólio pela CNN, como turista, use lentes telescópicas na câmera, assim o pessoal de casa gosta verá alguma graça.

Estou a duas quadras da Union Station, então o metrô ainda é o melhor e mais barato meio de transporte. Experimente um táxi para ter certeza. Andam a 40 km/h, sem ultrapassar sinal algum. E estão todos conectados pelas orelhas a telefones celulares. Se der sorte, encontrará um taxista muçulmano por volta das 18h, que receberá a oração do dia em seu aparelho eletrônico e passará o trajeto entoando uma canção religiosa em árabe. Fantástico e muito bonito, sem ironias.

Para quem não gosta de fazer compras ou passear no shopping, a cidade até que possui alguns atrativos. Museus, destaque para o Spy Museum, o waterfront na beira do Potomac, o pseudo-intelectual-moderninho-hype-ponto-de-encontro em Dupont Circle e outros.

Titanic petista

Uma das melhores publicações dos EUA é a satírica The Onion, que em uma de suas páginas históricas demonstra bem o que vem acontecendo no Brasil. Bem, registro apenas para o aturdimento e a ponta de inveja dos colegas que ficaram em Brasília assistindo ao desastre.

Na minha última sexta-feira de trabalho, em Brasília, finalizava a arrumação da mesa quando o diretor entra na Redação e pede para o colega do lado apurar que diabos a Veja publicaria no dia seguinte. Era uma nova fita, mostrando corrupção nos Correios. Dali pra frente, o caldo só fez entornar. E minha modesta colaboração para o caso nunca apareceu.

Ontem, a Veja trouxe mais detalhes, a ponta de um iceberg, em minha humilde e desnecessária opinião, sobre a ligação do PT com um publicitário cheio de maracutaias aparentemente. O sujeito foi avalista e pagou um empréstimo feito pelo partido ao Banco Safra. Estranho, muito estranho.

Essa história toda do PT enlameado me lembrou desde o início o caso do Titanic, aquele baita navio que não poderia afundar nunca, e que encontrou o fundo do Atlântico na sua primeira viagem. No início do século passado, agora temos no Brasil o naufrágio do PT, um Titanic de moralidades que nunca seria afetado pela sujeira da política.

Voltando à Onion, o jornalzinho sabiamente descreveu em sua primeira página o fim do Titanic como o naufrágio de uma metáfora. Ainda não tenho certeza, mas me parece que ocorre o mesmo no caso mensalão.

Por aqui

Os fogos de artifício para comemorar o Dia da Independência devem começar já daqui a pouco, a cidade está repleta de visitantes, mr. Bush já falou das suas na TV. Mais do mesmo.