ATO 2 - Obituário
O senhor quer saber minha história? Eu conto tudo, doutor, mas preciso que o senhor diga que vai ao menos pensar na hipótese de me ajudar. Vai? Então vou contar doutor. Mas de forma bem resumida. Com esse tipo de coisa é melhor ir direto ao ponto.
Não faz uma semana, doutor. Minha vida continuava na mesma. Trabalhava como professor na universidade federal. Era professor de arqueologia, doutor. Vê que curioso? Já estou prestes a desaparecer e sei exatamente o que vão dizer de mim, e do senhor também se me desculpar a ousadia, daqui a uns cinco mil anos. Seremos esqueletos debaixo da terra, doutor. Se a humanidade desaparecer, algum bicho esquisito vai escavar nossos ossos e montar em algum museu. Imagino que assim conseguiria ser ainda mais útil. Mas deixemos isso de lado, voltemos à história, doutor.
Acordei de manhã, como eu fazia todos os dias, me lavei e peguei o jornal na porta de minha casa. Era assinante de jornais, doutor, e perceba agora a curiosidade maior dessa história toda: mal sabia que eu mesmo já era notícia. Notícia passada, do dia anterior, e seria notícia novamente no dia seguinte e talvez no outro, ainda. Não lembro bem, doutor, naquele dia resolvi não ler mais jornais pelo resto da vida, aquilo era um ultraje. Mas não vamos pular os detalhes. Apesar da pressa, doutor, os detalhes não devem ficar de fora nunca. Somente com os detalhes o senhor vai entender por que preciso de sua ajuda.
Preparei o café, como todos os dias, tomei um banho, vesti um terno e sentei à mesa para o desjejum. Normalmente não como nada de manhã, doutor, sou muito disciplinado nesse ponto. Refeição mesmo apenas o almoço. Mas isso também não é importante.
Comecei a folhear o jornal e cheguei aquela página maldita, doutor. Era só curiosidade, nada mais que isso, juro para o senhor. Vi ali: Correa de Mattos. Ora, meu nome, como o senhor já sabe, é Pedro Correa de Mattos. Pensei que se tratasse de algum parente ou até desconhecido. Nessas horas a gente não pensa muito, vai logo ler a notícia.
O jornal dizia que Pedro Correa de Mattos, professor universitário, havia morrido no dia anterior. Encontraram o corpo do sujeito horas depois de um infarto em sua casa. Nossa, fiquei supercurioso, lógico, né, doutor. Não era só um desconhecido, mas um homônimo. Decidi continuar lendo e a cada linha a história desse Pedro que nunca havia visto na vida se parecia com a minha própria história. Ele era professor universitário, na mesma universidade, e morava no mesmo bairro que eu. Isso tudo além da idade, que batia: 42 anos. Não sei se esse número é cabalístico doutor, não acredito em nada dessas coisas, mas que era esquisito isso era.
Bem, a única coisa que eu podia garantir é que não se tratava de mim, mas de um desconhecido com uma vida muito parecida com a minha. Muito parecida, doutor. Ele dava aula na mesma faculdade, no mesmo curso.
Mas aquilo não era da minha conta. Se não conheci o tal Pedro que tinha o mesmo sobrenome que eu quando o sujeito era vivo, não ia fazer diferença para mim conhece-lo agora que tinha batido as botas. Terminei o café e o jornal, apertei a gravata, pus o paletó e saí de casa.
