Sexta-feira, Agosto 29, 2003

ATO 2 - Obituário

O senhor quer saber minha história? Eu conto tudo, doutor, mas preciso que o senhor diga que vai ao menos pensar na hipótese de me ajudar. Vai? Então vou contar doutor. Mas de forma bem resumida. Com esse tipo de coisa é melhor ir direto ao ponto.

Não faz uma semana, doutor. Minha vida continuava na mesma. Trabalhava como professor na universidade federal. Era professor de arqueologia, doutor. Vê que curioso? Já estou prestes a desaparecer e sei exatamente o que vão dizer de mim, e do senhor também se me desculpar a ousadia, daqui a uns cinco mil anos. Seremos esqueletos debaixo da terra, doutor. Se a humanidade desaparecer, algum bicho esquisito vai escavar nossos ossos e montar em algum museu. Imagino que assim conseguiria ser ainda mais útil. Mas deixemos isso de lado, voltemos à história, doutor.

Acordei de manhã, como eu fazia todos os dias, me lavei e peguei o jornal na porta de minha casa. Era assinante de jornais, doutor, e perceba agora a curiosidade maior dessa história toda: mal sabia que eu mesmo já era notícia. Notícia passada, do dia anterior, e seria notícia novamente no dia seguinte e talvez no outro, ainda. Não lembro bem, doutor, naquele dia resolvi não ler mais jornais pelo resto da vida, aquilo era um ultraje. Mas não vamos pular os detalhes. Apesar da pressa, doutor, os detalhes não devem ficar de fora nunca. Somente com os detalhes o senhor vai entender por que preciso de sua ajuda.

Preparei o café, como todos os dias, tomei um banho, vesti um terno e sentei à mesa para o desjejum. Normalmente não como nada de manhã, doutor, sou muito disciplinado nesse ponto. Refeição mesmo apenas o almoço. Mas isso também não é importante.

Comecei a folhear o jornal e cheguei aquela página maldita, doutor. Era só curiosidade, nada mais que isso, juro para o senhor. Vi ali: Correa de Mattos. Ora, meu nome, como o senhor já sabe, é Pedro Correa de Mattos. Pensei que se tratasse de algum parente ou até desconhecido. Nessas horas a gente não pensa muito, vai logo ler a notícia.

O jornal dizia que Pedro Correa de Mattos, professor universitário, havia morrido no dia anterior. Encontraram o corpo do sujeito horas depois de um infarto em sua casa. Nossa, fiquei supercurioso, lógico, né, doutor. Não era só um desconhecido, mas um homônimo. Decidi continuar lendo e a cada linha a história desse Pedro que nunca havia visto na vida se parecia com a minha própria história. Ele era professor universitário, na mesma universidade, e morava no mesmo bairro que eu. Isso tudo além da idade, que batia: 42 anos. Não sei se esse número é cabalístico doutor, não acredito em nada dessas coisas, mas que era esquisito isso era.

Bem, a única coisa que eu podia garantir é que não se tratava de mim, mas de um desconhecido com uma vida muito parecida com a minha. Muito parecida, doutor. Ele dava aula na mesma faculdade, no mesmo curso.

Mas aquilo não era da minha conta. Se não conheci o tal Pedro que tinha o mesmo sobrenome que eu quando o sujeito era vivo, não ia fazer diferença para mim conhece-lo agora que tinha batido as botas. Terminei o café e o jornal, apertei a gravata, pus o paletó e saí de casa.

Quinta-feira, Agosto 28, 2003

Tragédia em três (curtos) atos

ATO 1 - Camisa-de-força

Se tivesse uma navalha, doutor, já teria terminado com isso. Bastava uma navalha: em dois segundos acabaria com tudo. Um corte seco e rápido na base de cada pulso, doutor, para exterminar essa vida inútil. Uma simples navalha, e o senhor poderia me ajudar com isso.

Sei que não enxergo, doutor, mas isso não me faz falta. Passo a maior parte do tempo pensando nessa solução. É a única solução, doutor, mesmo que o senhor me diga que não é bem assim, que sempre há vida a se viver. Cansei dessa história, e nós dois sabemos que depois de morrer duas vezes não conseguirei ir a lugar nenhum.

Seriam dois cortes magníficos, doutor. Pena que não tenho mais olhos sadios para ver. Na minha imaginação ainda consigo ver muito bem e vejo: minha mão direita encostaria a base da lâmina da navalha no pulso esquerdo, repousaria ali por alguns segundos, apenas o tempo suficiente para que eu sentisse o frio do metal. Penso em demorar um pouco mais que o necessário e fazer a lâmina virar um pouco de lado. Meu próprio reflexo no metal frio. A minha imagem na lâmina. Carrasco e vítima no mesmo espaço. Um momento único, jamais poderia ter aquela ou qualquer outra visão novamente, doutor.

De repente, faço a lâmina correr sobre meu pulso e dor se mistura à euforia dos últimos segundos. Apenas segundos de vida, doutor! Pode imaginar isso? O momento em que, depois de tomada a decisão, minha vida escorre através do sangue que deixa meu corpo.

Concentrado em terminar a tarefa, ainda vejo, na minha imaginação, a lâmina mudar de mão. Passaria a navalha para a mão esquerda, que morre aos poucos, doutor, e, usando-a apenas como suporte, passo o pulso direito sobre a lâmina e pronto. Basta abandonar a navalha no chão e abaixar os braços. Trabalho feito. Em instantes toda minha vida miserável chegaria ao fim.

O senhor poderia me ajudar com isso, doutor. Apenas uma navalha. O senhor me dá uma navalha e retira essa camisa-de-força. Coisa simples e rápida. Depois põe a culpa nesses enfermeiros malditos que só sabem entrar aqui para me azucrinar com as pílulas.

Segunda-feira, Agosto 25, 2003

Delírio

Há tempos não via um domingo tão bom.
Em Brasília costumo ter sábados gloriosos, ensolarados, radiantes. Aos sábados, sou senhor do meu destino, ícone único de minhas vontades. Consigo pensar e escrever relativamente bem. Consigo levantar antes do meio-dia e sinto-me disposto a conquistar impérios e resgatar donzelas em perigo.

Apenas aos sábados.

Aos domingos resido em uma capital distante. Fria, apesar do céu aberto. Uma realidade distante e inalcançável me abate, o lado oculto, sombrio, taciturno, depressivo.

Depois de muito tempo, não sei precisar se dias, semanas ou meses, este domingo, embora não tão alegre quanto o sábado anterior, trouxe-me sorrisos, uma euforia permanente, um bem-estar, ou melhor, um bem estar, sem hífen para não restringir a satisfação de respirar por aqui.

Brasília é dada a paranóias. Não sei explicar muito bem, talvez seja a falta de opções para lazer ou a limitação dos setores planejados, da ausência de esquinas, por estar encravada no interior do Planalto Central.

Não há a praia com sua mansidão e infinitude onde é possível desaguar algumas angústias. Temos de represar os sentimentos e conviver com eles.

Já o Rio de Janeiro é uma válvula de escape. Não represa sequer as chuvas por muito tempo: a serra, que tanto bloqueia o curso das nuvens, apieda-se de interromper o fluxo natural dos ventos e permite a passagens dos blocos de vento.

Brasília nada represa. As nuvens correm loucas em direção ao que não se vê.

Mas limita. Há fronteiras. Fronteira onde termina o urbano. Fronteiras arquitetônicas, que não podem ser ultrapassadas. Fronteiras para sua classe social, classe profissional. Há espaços destinados para cada atividade, fora dos quais não é possível sobreviver.

Talvez por isso os sentimentos represados tornem-se obsessões. Já observei isso em outras pessoas e, desconfio, estive agindo da mesma maneira. Não foram poucos os avisos ou alertas. Estive obsessivo com uma presença, uns olhos, uma certa pele.

Represado por imaginar a vida sem outras opções, outras escolhas de minha parte. Havia apenas Mrs. Dalloway ou a morte ou a existência infâme da covardia por desistir do melhor sonho que eu poderia ter.

Desde domingo não há mais. Desde ontem, consigo respirar melhor.

Carro-bomba

Mrs. Dalloway est morte


Sexta-feira, Agosto 22, 2003

Toujours

Estás certa quando evitas a história. Se pudesse, faria o mesmo.
Viveria cada dia na mesma cadeira, cada noite na mesma mesa, cada madrugada na mesma cama.
Se pudesse, deixaria esse assunto de lado e conversaria apenas sobre as sinfonias ou as películas ou os últimos parágrafos da moda ou sobre a moda ou sobre a política dos que fazem política ou sobre economia que fazem uns e outros seguem ou sobre o que escrevi ou sobre o que escreveste ontem, quando o dia foi exatamente aquilo que se previa e deveria ser.

Estás mais que certa quando finges não pensar sobre esse assunto e te enterras no trabalho.
Se pudesse, também consideraria o trabalho como a melhor fuga.
E tens razão, porque é mesmo.
Se pudesse, ignoraria qualquer sombra de pensamento a respeito do assunto.
Anularia qualquer vontade. Deixaria morrer qualquer centímetro de desejo de tocar teu rosto.

Ah, teu rosto.

Nunca toquei teu rosto com minhas mãos.
Jamais soube qual é tua textura, tua epiderme, os desejos que tens ao te tocarem a face.

Estás coberta de razão quando ignora teus desejos.
Ou quando mentes sobre eles por medo, medo, medo.
O mesmo medo que tenho, mas que não consegue me impedir um estado alucinado e incompleto.
Se pudesse, faria o mesmo.
Exatamente o mesmo que tu, senhora.
Abandonaria sobre a mesa qualquer vestígio de intensidade maior.
Viveria minha vida a meio-tom.
A meia-voz.

Escolhes a opção correta quando optas pelo silêncio.
Como te dizia ontem, és repleta de objetividade. Estás sempre adequada ao que te é exigido.
Como uma resposta pronta a uma pergunta não-feita.
Se pudesse, faria o mesmo.
Silenciaria ante as palavras que me vem à cabeça, as palavras imundas, os gestos culpados de tocar teu corpo.
Enterraria todos os vocábulos. As junções de letras tais e quais.
Deixaria de lado o que penso quando te vejo.

Estás certa quando dizes que somos amigos.
Se pudesse, compreenderia as coisas do mesmo jeito.
Somos amigos, contamos um com o outro a uma distância segura da bestialidade que há em nós mesmos.
Somos produto de uma classe profissional.
Somos coleguinhas. Companheiros de jornada. Nomes no jornal.
Temos o poder de construir e destruir mitos e verdades.
Somos o que há de mais podre representando o que há de mais podre.
Sem um pingo de genuinidade quando aproveitamos a nossa voz para vocalizar o que pensamos ser apenas nosso pensamento, nossa opinião. Refletimos, como espelhos cinzentos, o câncer maior de uma sociedade miserável e carente.

Mas peço que não faças isso novamente.
És livre, até certo ponto pelo que te mostras, para fazer, pensar, dizer o que bem quiser.
Mas lembra sempre que há mais um quando conversamos.
Que não é fácil ignorar uma frase.
Que não há espaço em mim para o abandono.
Que toda despedida deve ter uma razão.
Que toda mudez precisa de um propósito.

Não digas, por favor, que vais fazer algo que não terás como cumprir.
Não prometas em vão.
Porque hoje acordei sorrindo. Feliz.
Com a ignorância da alegria.
Com a ingenuidade da carência, por pensar, por elocubrar, que iria te ter por parcas duas ou três (!!!) horas, apenas para mim.
Apenas para ouvir toda minha realidade que existe e não existe.

Já disseram que não há mais espaço nesse mundo para amores de Vinícius ou de Quintanas.
Discordo, senhora.
Quando te relacionas com alguém, sabes que estás bebendo e dando de beber.
Minha fonte são as letras de gente morta ou distante.
Não sei das tuas, queria conhecê-las.
É um espinho ouvir de ti algo sobre teu marido.
É como um pecado ao contrário, pois pecarias ao me deixar entrar.
Ao passo que ele sempre esteve, sempre teve, sempre dispôs.

Eu não.
Sou como um vampiro querendo sugar de tua presença o máximo.
Não sei de teus compromissos.
Tenho-os para mim apenas comigo.
Deverias (talvez ?) fazer o mesmo.
Seria uma linda história a nossa.
Uma belíssima história de amor aquela que viveria contigo.
Para sempre.
Para sempre enquanto houvesse história, posto que todas tem início meio e fim.
Todas.
E conosco não seria diferente.
Sinto que escorregas pelos vãos de meus dedos para sempre.
Contigo e comigo sempre tudo é para sempre.

A mulher que és não vejo.
Nunca.

Quinta-feira, Agosto 21, 2003

Dedilhando

Há palavras que ferem como vidro em brasa

ou

Teu silêncio é distância e abandono

Segunda-feira, Agosto 18, 2003

Alguns dias

Não faz uma semana, vi Mrs. Dalloway chorar. Não faz sete dias, a vi limpando a borda dos olhos com um dedo, da forma mais delicada que uma mulher poderia fazer. Não faz uma semana, mas parecem séculos de opressão e angústia no meu peito por haver dito a ela o que se passava por aqui.

In vino veritas.

Mrs. Dalloway sabe ouvir. E perguntar as perguntas certas. Também ando aprendendo a ouvir com ela. Teimei em confessar o quanto é difícil confessar algumas loucuras a ela. E ela me ouviu com o silêncio certo da compreensão. Nada mais que isso. A compreensão estampada nos olhos metamorfoseantes de Mrs. Dalloway. Olhos que decifram. Que atacam ou defendem. Os belos olhos de Mrs. Dalloway são os seus exércitos invencíveis.

Aguardei as duas horas necessárias. Não faz uma semana, aquelas duas horas introdutórias se esvaziando, o relógio me apertando o pulso, a garganta, impedindo o fluxo de palavras. "Não devia falar isso", disse, e ela compreendeu o que seria dito a partir dali. E emudeceu.

E me presenteou com o tal silêncio. Não havia mais ninguém ali. Não havia mais dia ou noite ou medo ou hipóteses ou tragédias ou vitórias oprimidas, apenas aqueles olhos. Os olhos estáticos e compreensivos de Mrs. Dalloway me deram a redenção de que jamais suspeitei ser possível.

Veio a despedida, porém.

E toda a solidão e pretensão e dúvida e dúvida e dúvida.

E as noites em claro. E as madrugadas que se iniciam às cinco da manhã. Para mim e para ela. Mrs Dalloway e o pêndulo mágico de ilusão.

Regrets

Agora isso.

Da primeira vez, pedi desculpas.

Na segunda, prometi que não iria mais acontecer.

Agora, da forma mais vil, ignorei meus próprios conselhos e ultrapassei os limites. Meti os pés pelas mãos, como dizem.

Deveria saber que a culpa, a irremediável e incurável culpa, ia cair sobre minha própria cabeça.




Quinta-feira, Agosto 07, 2003

Embate

a eterna luta entre a razão
e o sentimento.

Desta vez mais confortável.
Para ela.


Sábado, Agosto 02, 2003

Je ne suis pas le seul

Ausente e distante de uma vida minha que deixei no Rio de Janeiro, em São Paulo, e até mesmo na esquina inexistente da capital da República, tento me segurar a uma mulher como a uma tábua de salvação.

Tremo e soluço como um afogado. Vivendo às minhas próprias custas. Financiando com meu suor a indústria da bebida, do tabaco, dos acessórios de automóvel, dos tapetes de banheiro, dos rocamboles de chocolate da padaria mais próxima.

Ante a arquitetura da cidade monumental sinto-me ainda mais átomo. Sob observação. Uma cobaia sinistra em que se administra o trabalho incessante e os domingos de falsa glória.

As manchetes do dia, as pernas e braços e abraços das noites. São vícios a que me submeto Resignado e quieto como um pé de goiabeira. Ressequido, retorcido, com os frutos, pequenos e maduros, a distância de um abandono corriqueiro. Cotidiano.

À mulher mais bonita e mais velha e proibida ofereço os melhores presentes e segredos.

Confidencio meus medos e paixões. Antes não me sacio.

Quero sorver de volta o que há meu depositado nela. Um processo incessante de redescoberta de mim mesmo.

“Não tenho ambições nem desejos
ser poeta não é uma ambição minha
é a minha maneira de estar sozinho”
(A.C.)




Antes de amanhã

O medo que aprisiona os olhos
impede a visão da moça
da cruz
da gravata
da culpa

Medo sentimento incompleto
que desconstrói
destrói
aniquila

O medo que costura a culpa
do ato
do desejo
do olhar

Antes o homem era apenas ímpeto em mim

Ambição e tolices
de histórias em quadrinhos
de poesias sem sentido
de palavras rabiscadas no quadro negro

O medo é uma venda negra atada em meu rosto
o medo me faz ver apenas o passado
e impõe silêncio
às tímidas tentativas
aos gestos tímidos
à suave memória
à mágoa
ao não-existir

O medo aprisiona meus dedos
aprisiona os sentidos
e me curvo ante o refúgio
de não magoar sequer a mim mesmo

Posto não existir,
porém,
sinto.

Prosa sem compromisso

Amarílis, para mim, sempre foi nome de planta. Flor ou coisa parecida. Quando ela me disse o nome pela primeira vez, fiquei massageando o céu da boca com ele por minutos. Amarílis. Amarílis. Amarela amarga bile. Amarílis. Que raio de nome seria aquele. Meus pais eram hippies, ela me disse. Eles gostavam de nomes estranhos e ouviram esse em uma música de uma banda que não existe faz uns 30 anos. Amarílis.

Encontrei Amarílis perdida às 3h da manhã. Perdida e bêbada como eu. Ela sentada eu caminhando por Copacabana, correndo dos cachorros. Não lembro se ainda existem cachorros abandonados à própria sorte em Copacabana, mas naquela noite havia. Resolvi esperar o ônibus naquele ponto vazio, perto da Raul Pompéia. Não havia ninguém por ali. Interminavelmente sábado. Os compromissos do dia seguinte se desvanecendo na minha cabeça. Amarílis.

Já passou algum 474?, perguntei como a mais inocente das criaturas, Não percebi, Hum, Hum, o quê?, Nada, só fiz hum, quer dizer, tudo bem, ok, beleza, tranqüilo, vou esperar do mesmo jeito, só queria saber se tinha passado, Esse seu hum foi muito estranho...

Essa era Amarílis. O tipo da pessoa que percebe se o seu “hum” está normal ou estranho. Ela tinha razão. Amarílis tinha por norma acertar no alvo. Sentei ao seu lado no meio-fio. Os dois imundos, encharcados de mundo até o último osso. Rescendendo a whisky e rum e cerveja e cigarros.

Tirei o maço do bolso e acendi um câncer. Sem querer incomodar, Não incomoda, e Amarílis acendeu o cigarro. Até ali, uma desconhecida bem esperta, isso o que ela era e continuou sendo. Mas vamos à história.

Então?, Não vai me contar o que significa esse hum todo misterioso?, Acho que vou, mas por que você quer saber? Ora, não há nada por aqui e uma história ia ser legal. Pelo que parece, não está muito disposto a fazer segredos dela, está?

Não. Não estava. Queria um barman de quinta categoria, desses filmes americanos, em um pub imundo, repleto de cadeiras vazias e uma máquina de música. Um barman negro com um pano pendurado no ombro bem disposto a ouvir a última desgraça da noite. Ainda assim, fiquei em silêncio. Contar segredos é como se despir. Se não fizesse direito, Amarílis poderia considerar vulgar, talvez até obsceno. Resolvi ganhar algum tempo e tentar virar o placar. Ela me dominava, para estraçalhar meu pescoço naquela sarjeta era questão de minutos.

Como você se chama afinal? Ora, que importa isso agora? Não estamos fazendo nada, baby, e seu nome viria a calhar para início de conversa. Eu poderia ter sido ainda mais idiota. O “baby” me saiu lascivo e incompreensível. Bêbado. Bêbado demais para entabular conversa.

Amarílis, O quê?, Isso mesmo que você ouviu baaaaaabyyy, disse ela, prolongando até não mais poder a palavra ridícula que ouvira de mim há poucos segundos. Amarílis... que tipo de nome é esse? É o nome de uma flor ou o quê? Não sei, meus pais ouviram numa música que nem sei se existe mais. Amarílis, é um bom nome, não digo que é necessariamente bonito, mas é um nome muito bom, dá para se virar bem com ele, não? Até hoje não me criou problemas, quer dizer, sempre tem um idiota que não entende, mas tem tanta coisa que não entendem que meu nome não chega a ganhar status por isso.

Boa. Muito boa aquela menina. Não era o que se podia chamar de uma bela dama, ou recatada moça. Sentava com as pernas semi-abertas, os pés separados e os joelhos encostados um no outro, com aquela saia preta semelhante à de colegial, uma camiseta azul com as mangas pretas e um número estampado na frente, 83 ou 38, nunca vou me lembrar disso. Tinha ainda um colar de bolas prateadas e uns oitocentos brincos e argolas pelo rosto. Mal se podia ver os olhos pretos no meio daquilo tudo: um rosto sério e triste. Olheiras que manchavam o branco, branco incomparável. Cabelos negros. O nariz levemente desconcertante e traços muito finos. A boca aparecia como um rasgo antes do queixo. Uma testa enorme. Amarílis.

Pode vir de amarelo ou amargo, já pensou nisso?, Acho que já pensei em tudo que pode ter dado origem a esse nome, mas não mude de assunto, conte-me logo sobre esse “hum”, sou muito curiosa e dessa vez você não escapa, Não era nada de mais, quando vim andando pela rua pensei, não sei por quê, que todos os ônibus já tinham passado e eu ia ficar horas sentado aqui no banco do ponto, Eu também penso nisso de vez em quando, esperar pelo ônibus é a parte mais trash da noite.

Óbvio que eu havia gostado da menina. Ela não se esforçava para parecer autêntica, o que é um atributo cada vez mais difícil nesses dias. Mais: conseguia me surpreender. Resolvi arriscar algo patético. Expor o que se quer é sempre patético.

Pois é, baby, mas pode acontecer algo legal como a gente conhecer alguém no ponto, É, outro dia... a partir daí não prestei atenção. A minha primeira e única flecha havia passado longe do alvo. Bem longe, não havia nada mais para contar sobre aquela noite.

Fim? Não, caro leitor, histórias nunca acabam assim. Trocamos telefone, nos ligamos, vivemos uma história como as outras até que chegou o ponto final.

Aí sim, o fim de uma tragédia complicadíssima.