Irmã Dorothy e Fogoió
Tantos são os pistoleiros atuando no Pará. Tantos, os artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Fogoió. O nome do pistoleiro suspeito de assassinar há exata uma semana a missionária Dorothy Mãe Stang no Pará, em uma emboscada, numa estrada de terra próxima a mais uma cidade pequena do interior do Pará, chamada Anapu. São duas vítimas, bem diferentes entre si. Mas vítimas, contudo.
A morte rendeu protestos. De sindicalistas, ongueiros, sem-terra, religiosos. Foram procissões, cortejos, passeatas, missas solenes, atos pedindo paz, que não se esqueça jamais o assassinato horrendo de uma velha senhora que até o último segundo lutou com palavras. Palavras da Bíblia, sim, mas também verdades universais de pão, teto, livros. Estas mais importantes.
A sociedade brasileira deveria ter derrubado duas lágrimas no último sábado. Uma para irmã Dorothy. Outra para Fogoió. Ele cometeu um erro terrível, um crime abominável, mas lembrando de alguém mais inteligente, talvez seja melhor condenar o pecado e salvar o pecador.
Protestemos por Fogoió.
A tal declaração universal foi escrita por homens que definiram os direitos imprescindíveis, os mais importantes, os mais necessários, aqueles dos quais não devemos nos afastar: além do imenso etecétera, saúde, moradia e educação.
Se, portanto, um país resolve criar um ministério específico dos direitos humanos, temos então o mais importante cargo da República, a maior investidura de um homem, responsável pela aplicação indiscriminada destes direitos, da fiscalização severa dos abusos a eles.
O secretário especial dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, tem uma história admirável. Foi preso, torturado, lutou por anos no Congresso, bradou contra a tortura policial, contra o trabalho escravo, contra as chacinas. Aprovou com seus pares uma lei obrigando o Estado brasileiro a desenterrar os ossos de seus inimigos subversisos e comunistas. Atende a todos, mantém o celular ligado durante todo o dia. Conversa com jornalistas, ambientalistas, detentos. Possui a tolerância necessária a um homem.
Mas nunca o ouvi falar sobre educação. E nunca é muito tempo.
Um pequeno parêntese.
Ontem, ao saber que mais uma pessoa havia sido assassinada no Pará, Nilmário suspendeu sua viagem à China. Não deveria ir, mas não porque os chineses são notórios torturadores de quem pensa diferente, ou porque mantém campos de trabalho forçado, condenam à pena de morte milhares e milhares todos os anos. O que Nilmário iria mostrar aos chineses? Que exemplo daria aos asiáticos?
O de um país que assiste a chacinas no jornal das 20h? Que mantém trabalhadores esquálidos, cadavéricos, atados a fazendeiros poderosos pelo laço vergonhoso da escravidão? As prisões desumanas, a tortura policial? O pior dessa viagem não era a ida à China, mas o convite para que os chineses conhecem a defesa dos direitos humanos no Brasil.
Por exemplo, Nilmário não levava na mala nenhum livro de Paulo Freire. Ou espaço em seus blocos de anotação para os métodos do sistema educacional chinês.
Ademais, o motivo para que ele permanecesse no Brasil era outro, diferente e distante dali. O conservador Geraldo Alckmin demitiu todos os funcionários da Febem para contratar outros. Não ouvi o ministro criticar. Ou oferecer ajuda. Por que não treinar os futuros funcionários para que se tornem os mais entusiastas na difícil tarefa de tornar jovens criminosos, confusos, em pessoas melhores? Que profissão poderia ser mais difícil, e conseqüentemente gratificante, que regenerar pessoas? Isso não significa salvar vidas?
Era isso que irmã Dorothy fazia. E tentou até o fim. Apelou para sedução de seus argumentos a Fogoió. Tombou armada até os dentes com idéias perigosíssimas: todos devem ser protegidos, a floresta é um patrimônio, os pistoleiros também precisam aprender a ouvir e mudar. Acreditava a irmã Dorothy que poderia convencer. Principalmente acreditava.
Fogoió não ficou preso na Febem. Não recebeu sobrenome, educação, saúde ou moradia. Foi castigado pelo Estado por ser pobre, analfabeto, visto como imprestável. Como exercício, imagino se ele alguma vez se sentou em uma sala de aula. Se aos dez anos, conheceu a história de seu país, a necessidade de se manter a paz após duas estúpidas grandes guerras. Se leu poesias.
Nada disso. Aprendeu a sobreviver, a tirar o pão da selva, cujas leis conhecemos bem. E recebeu a proposta de embolsar R$ 50 mil para apertar algumas vezes o gatilho. E o disparou contra uma senhora de 73 anos, pouco se importando com sua história e importância.
Agora, encurralado no mato, Fogoió está prestes a ser preso por policiais federais bem nutridos, saudáveis, incensados por seu ministro da Justiça, em caminhonetes do valor da empreitada do pistoleiro, de óculos escuros e caras de profissional para receber as fotos de agências de notícias internacionais. É óbvio que a prisão de Fogoió é importante, a impunidade deturpa todos os valores de uma sociedade saudável. Mas a questão não é essa.
Quando preso, poderá ser espancado pela polícia. Se condenado, terá que aprender outra lição na selva amazônica, a apodrecer em uma cadeia. E ser novamente esquecido, como o era há oito dias. Esforça-se o Estado para torná-lo novamente um excluído.
Talvez, por isso, Fogoió sinta medo. Ou raiva. Do fazendeiro, de sua vida, da falta de sorte e de oportunidade. De si mesmo, por não ter dado ouvidos a irmã Dorothy. Do Estado que jamais garantiu algum de seus direitos. Compreensível.
Não somente por tudo isso, Lula errou quando enviou o Exército ao Pará. E Nilmário, cuja trajetória merece elogios de toda natureza, também falhou ao apoiar uma coisa assim. Tampouco eram necessários pacotes disso ou daquilo.
Tantos os pistoleiros atuando no Pará. Tantos, os artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Tão mais rápido apliquemos estes àqueles. Tão mais rápido poderemos respirar tranqüilamente.
Deveríamos enviar ao Pará um batalhão. Mas de professores. De todos os Estados, de diversos países, os melhores especialistas, os mais apaixonados pela tarefa de regenerar indivíduos em enorme quantidade, com os melhores salários, bibliotecas ambulantes em helicópteros. Que os pistoleiros sentem nas salas de aula. Que a grande batalha seja a de conquistar corações e mentes pelas palavras, sempre muito, muito mais eficientes que a baioneta.
Não é justo deixar nas mãos de um recruta de 18 anos a tarefa de guardar dia e noite os acuados dos poderosos. Ou o inverso.
Não é justo que seja dele a tarefa de, mais uma vez, apertar novamente um gatilho.
***
Comunista por comunista, fico com o grande repórter Vannildo Mendes. Chegou ao Pará e esqueceu dos gabinetes. Quis saber o lado humano da tragédia. E pintou um retrato assustador na edição de hoje do Estado de São Paulo.
Mantida sob proteção rigorosa, em local sigiloso, a testemunha da execução da missionária Dorothy Stang fez para os policiais uma narração dramática das últimas palavras trocadas pela religiosa com seus algozes.
No momento da emboscada, pouco depois das 8 horas da manhã de sábado passado, os dois pistoleiros se aproximaram da freira.
Ela, percebendo que chegara a sua hora de morrer, fixou os olhos azuis em Fogoió e tentou demovê-lo da idéia do crime.
"Meu filho, vá retirar o capim da roça porque as sementes já começaram a brotar. Vá cuidar dos seus filhos, esqueça o mal", teria dito Dorothy.
"É mesmo? Rá-rá!", foi a reação do pistoleiro, com um sorriso ao mesmo tempo cínico e nervoso.
"Como se quisesse ganhar tempo", narrou a testemunha, "a irmã encostou o corpo e o cotovelo ao braço com o qual Fogoió fazia sinal de puxar a arma".
"Sempre fitando os olhos do criminoso, ela continuou: "Meu filho, isso não vale a pena. Eu sou uma velha indefesa. Você vai se arrepender. Não faça isso. Vá cuidar da sua família. Siga o caminho de Deus'."
Fogoió, ainda segundo o relato da testemunha, continuou rindo e tentando se desvencilhar e se afastar para uma distância segura a fim de puxar a arma e atirar.
Neste momento, o outro pistoleiro, Eduardo, que trazia na mão esquerda um galão de gasolina e tinha a mão direita livre, fraquejou e, trêmulo, pediu para Fogoió deixar a freira em paz.
"Vamos embora, cara. Deixa isso pra lá", teria dito Eduardo.
A religiosa insistiu na tentativa de ganhar tempo. Pegou no braço do criminoso, abriu a Bíblia e começou a ler um trecho que a testemunha não soube identificar.
Nesse instante, Fogoió teve espaço para recuar, puxar a arma - branca e de cano longo - e desferir o primeiro tiro, na cabeça da freira. Ela balançou com o impacto e caiu lentamente. A testemunha, escondida entre árvores, correu e, enquanto fugia, ouviu outros disparos, mas não soube dizer quantos. (Vannildo Mendes)

4 Comments:
As Dorothys nascem e são educadas e crescem espiritualmente para que os Fogoiós as assassinem.
Iuri, a-do-rei o novo layout do seu blog, está parecendo com o do Mestre César, né? Muito legal, bem melhor de ler, viu?
ADOREI!
Bien, só me resta lhe desejar muitos textos e inspirações no novo layout, hihihi!!
Bjokas!
Moulin
Iuri, a-do-rei o novo layout do seu blog, está parecendo com o do Mestre César, né? Muito legal, bem melhor de ler, viu?
ADOREI!
Bien, só me resta lhe desejar muitos textos e inspirações no novo layout, hihihi!!
Bjokas!
Moulin
e eu não sei usar o novo sitema de comentários, como já deu pra perceber...
puuu.
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