Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Os conselhos de Severino

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A política nacional surpreende a quem não colocou as barbas de molho, especialmente os esperançosos, uns tantos milhões que puseram as fichas no galo de briga vendido por Duda Mendonça em 2002, ou os outros embevecidos com o dólar a um real de Fernando Henrique Cardoso em 1998. Talvez os mesmos, neste caso.

Para quem ainda acredita, há diversas formas de abrir os olhos. Por dever de ofício, isso é ainda mais necessário quando o pior está por vir. Sim, podemos piorar ainda mais e mais e mais. Aos que não gostam de Palocci, imagine engulir o sujeito em cadeia nacional tentando explicar o inexplicável.

Uma das formas mais eficientes e profanas são as comparações esdrúxulas, diz-se mais pelo que o leitor conclui do que pela frase em si. Neste caso específico, falando sobre a recente e falsamente polêmica eleição da presidência da Câmara dos Deputados, o ideal é comparar Severino a um de seus grandes reflexos no tempo: Antônio Conselheiro.

Sim, sim. São praticamente o mesmo.

Não há registro na história recente do país de algum grupo que desejasse chegar ao poder para servir ao povo. Talvez os poucos guerrilheiros do Araguaia. Na falta de fuzis, curavam as doenças e alentavam os miseráveis de Xambioá.

Ficando apenas na redemocratização: Collor queria apenas se tornar gente grande, com dinheiro, pessoa bem sucedida. Ah! E caçar marajás. Quem acreditar que passe a toalha. Veio Itamar que, com o perdão imperdoável das generalizações, era mineiro em tudo: queria conhecer as mocinhas, acertar mais do que errar, e provar que os mineiros são os melhores em dirigir o país. Segurou a inflação, pelo menos.

Quando o príncipe FHC decidiu correr pela presidência já eram favas contadas. Inflação comportada, dólar controlado, uns poucos tostões aqui e ali para consertar asneiras da era Collor e tinha-se frango e iogurte a vontade. Assumiu para ficar 20 anos no poder, a escumalha que dormisse com o barulho.

Lula assumiu, nas suas próprias palavras, para comprovar que um torneiro mecânico poderia fazer muito mais do que qualquer banqueiro. Entendeu, companheiro? Se Silvio Santos criasse na década de 1980 um quadro com essas regras de eleição para presidente seria ainda mais visionário. Não foi, paciência.

Os que governam por aqui formatam seu discurso para a platéia. Conselheiro quis isso: construir o céu na terra para os escolhidos, respeitadas as tradições e dogmas, obviamente. Reuniu os mais esquálidos que a seca produziu, instalou um açude e por alguns foi feliz por ali. Pode-se dar de barato que esse fosse seu desejo genuíno, no fundo acreditava que não duraria muito. Acertou.

Severino Cavalcanti fez o mesmo. Está faz tantos anos no ar refrigerado da Câmara dos Deputados que viu ali seu eleitorado, seu povo, seus escolhidos de Deus. Tem seus olhos e palavras para os seguidores. Pretende elevar corações, mentes e bolsos. Ponha-lhe a cabeleira, corte-lhe metade da pança e temos o salvador de Canudos em figura.

Severino representa exatamente o que o Brasil pensa sobre si mesmo: na falta de melhor acordo, meu pirão primeiro. O fato de desnudar isso de forma vergonhosa talvez o redima, há um princípio de perdão implícito quando se fala de confissão. No fundo, não seja este o caso, deixemos de exageros.

A eleição do pernambucano para a presidência da Câmara, a tal terceira posição na linha sucessória do presidente da República, serve como a brotoeja à catapora: longe de resumir a doença, apenas a evidencia.

Quando estávamos em 2002, plena campanha para o Planalto, louvaram-se por toda parte a maturidade do eleitorado brasileiro. Coronéis voltaram às sombras na maioria dos Estados. Havia a nova geração da política, os filhos pródigos da abertura democrática, tínhamos no palanque para o primeiro posto do país um ex-sindicalista, barbudo sim mas com uma bela história, e um ex-presidente da UNE, com injustificada fama de bom administrador após um breve e patético estágio no Ministério da Saúde.

Nos Estados, houve a mudança. À exceção do Rio de Janeiro, o pior dos políticos brasileiros foram aposentados pelos eleitores. A festa não demorou muito. Dois anos depois, a maior parte dos coronéis, dos conservadores, dos representantes do pior que a política pode produzir voltaram com a carga toda, não só nas prefeituras de capital, mas principalmente no interior, esquecido pela mídia, esquecido pela classe política de Brasília.

Agora, o retorno triunfal à capital da República, num cargo que melhor deve representar os eleitos pelo povo. Repito, os eleitos, porque dizer que o povo brasileiro está representado em Severino Cavalcanti, ainda que indiretamente, é uma tremenda bobagem. No mínimo.

O governo errou ao deixar Severino Cavalcanti eleger-se presidente da Casa?

Muito. Mas não pelos poderes do cargo. O máximo que ele poderia fazer? Demitir Henrique Meirelles durante uma interinidade da presidência. Polêmica de poucos dias, vai-se às tintas nos jornais, aos microfones nas TVs, no fim da semana passou.

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O New York Times publica reportagem bem bacana sobre conversas de Bush filho com o amigo. Nelas, o atual presidente diz que não comentaria sobre o uso de drogas. O amigo justifica a gravação porque... bem... porque ele considera Bush uma figura histórica. E ainda o compara a Gandhi e Churchil.

Não há problema no fato de o atual presidente ter fumado um baseado ou cheirado uma carreira. Ao menos parou com isso. O preocupante e assustador da história é que o sujeito quer ser um exemplo para as crianças. Meu Deus.
Quanto ao sujeito que gravou as conversas. Se ele pensa mesmo que Bush se compara aos outros dois, realmente merece o castigo de ser seu amigo.