Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Polícia é polícia, governo é governo

Mais uma vez a Polícia Federal deu sua ajudinha ao Palácio do Planalto, desencadeando uma operação contra grileiros em Tocantins. Logo na semana em que quatro pessoas foram assassinadas no vizinho estado do Pará justamente por disputa de terras entre trabalhadores e sem-terra. A primeira das mortes, uma missionária brasileira de origem norte-americana que simplesmente incomodava. Muito.

Já não é a primeira vez. Durante a pré-campanha eleitoral de 2002, a PF encontrou as notas de R$ 100 na Lunus, empresa do marido de Roseana Sarney (PFL), naquele momento uma espécie de tsunami eleitoral abocanhando os votos conservadores e anti-Lula.

No maior escândalo político do governo, o caso Waldomiro Diniz em fevereiro do ano passado, vimos delegados e agentes chutando a porta de bingos e casas de jogo para buscas, na madrugada anterior a uma medida provisória que proibiria o jogo no país.

Se no governo Fernando Henrique Cardoso a Polícia Federal dava um auxílio fazendo às vezes de polícia política, o PT conseguiu impor uma aura de independência e profissionalismo em relação ao Ministério da Justiça. Uma imagem que se desbota facilmente.

A delegada responsável pela chamada operação Terra Nostra, como se vê hoje na Folha, disse que a quadrilha do Tocantins estava sem operar fazia três ou quatro meses. Por que as prisões foram feitas ontem? Porque foi o momento oportuno, explicou ela. Por oportuno entenda-se: o governo de Luiz Inácio Lula da Silva precisava de mais um spot de propaganda para alardear no cenário internacional, mostrando que combate a grilagem de terras e os pistoleiros.

Ora, façam o favor.

Desde a chacina dos fiscais do trabalho em Unaí, em janeiro do ano passado, o ministro Márcio Thomaz Bastos gosta de aparecer nas coletivas de imprensa e anunciar a prisão dos homens maus. Os tais bandidos ignóbeis, que não ficarão impunes no governo dos trabalhadores, dos certinhos, dos esquerdistas honestos e comprometidos com a probidade na administração pública.

A faca, neste caso como em todos os outros os outros, tem dois gumes afiados.

Polícia é polícia e governo é governo. Não se pode confundir as duas coisas. Nos Estados Unidos, qualquer prefeito pressiona seus homens para prender os assassinos de olho na próxima eleição. A grande diferença é que a polícia norte-americana, até onde se pode constatar, é bem mais profissional e sofre o escrutínio pesado de um Judiciário que funciona. Provas obtidas legalmente, entrando aí os mais diversos melindres individuais, são derrubadas pelo juiz.

No Brasil, sabemos que não é assim.

Quando uma polícia mambembe, desaparelhada e acostumada ao arbítrio e uso da força recebe elogios públicos de um governador ou ministro, tende a pensar que a porteira está aberta, que tudo pode porque os homens maus estão indo para a prisão, com os devidos holofotes das câmeras de TV e flashes de fotógrafos.

Mas e o outro lado?

No caso de São Paulo, a Polícia Militar incensada pelo conservador Geraldo Alckmin (PSDB) provocou a chacina da Castelinho, atirando contra um grupo de homens maus enclausurados dentro de um ônibus.

No Rio de Janeiro, os acenos de Anthony Garotinho (PMDB) para o preparo da PM geraram um caldo cultural na corporação responsável pela morte de jovens ajoelhados em uma das favelas que todo dia testemunham a falta de controle do governo estadual. Desta vez havia um fotógrafo, por ironia, no helicóptero da Polícia Civil, que conseguiu flagrar o episódio.

Os elogios à polícia não são proibidos, mas a falta de comedimento de governantes que adoram surfar no noticiário das 20h15 tornam agentes da lei despreparados em super heróis de terceira categoria, na luta do bem contra o mal. No Pará, por exemplo, a PM vê o mal nos sindicalistas e líderes ambientais. São eles que sempre criam as "confusões", não os madeireiros, representantes do setor produtivo e do poderio econômico na região. Basta ver as declarações de delegados paraenses ao Globo de hoje, tentando criminalizar a irmã Dorothy Stang por sua própria morte, aludindo a vinganças e revanches de seus companheiros contra os fazendeiros de Anapu, a cidade onde ela foi assassinada, próxima à Terra do Meio (do fim do mundo).

O revés desse clima de já ganhou na Polícia Federal é ainda pior. A população, que sempre viu nos meganhas os legítimos representantes da barbárie da ditadura militar, sente-se ainda mais acuada. Os desvios acabam não chegando mais à imprensa, pois a sociedade pensa que ninguém vai acreditar que os gloriosos homens da PF do PT cometeriam atrocidades. E cometem.

Outro dia o Jornal Nacional mostrou um agente mostrando uma arma a uma senhora de idade na fila da fronteira com a Colômbia. A mulher apenas reclamava da lentidão. Muitos policiais não vêem com bons olhos os jornalistas que denunciam isso. Imaginam que estão a serviço do mal, a soldo de poderosos.

A polícia tupiniquim não precisa de elogios, mas de treinamento, equipamento e um bom cabresto para andar na linha. Dizer que a sociedade paga seus salários seria simplista. Mas é o tipo da verdade irrefutável que pode servir de início a qualquer diálogo sobre o assunto.