Inteligência cubana
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Atiça a curiosidade saber o que o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, foi fazer em Cuba durante uma semana. De fato, sabe-se que não foi recebido por Fidel Castro, mas o presenteou com uma camiseta do Palmeiras. Com o nome do ditador gravado acima do número 10.
Atiça a curiosidade imaginar o que José Dirceu, o ministro da Casa Civil da Presidência da República, foi conversar com Condoleezza Rice, chefona do Departamento de Estado dos Estados Unidos, uma semana depois. De fato, sabe-se que conversaram sobre la isla, o plenipotenciário ainda encontrou tempo para um breve papo com Merval Pereira de O Globo, no qual coincidentemente elogia o serviço secreto cubano.
O objetivo da visita de Mauro Marcelo era preparar o terreno para um intercâmbio técnico de dados com a famigerada DGI, a Dirección General de Inteligencia cubana. E daí? Bem, se problema há nessa coisa toda, reside basicamente neste fato. Pode-se dizer que a Revolução Cubana foi uma das melhores coisas que poderia acontecer à ilhota, depois de séculos de dominação espanhola e décadas de subjugo ao imperialismo norte-americano? Sim. Pode-se dizer também que o modo como a revolução se desenrolou causou problemas maiores aos cubanos do que um arremedo de democracia pós-independência poderia ter feito? Também.
Argumente-se que o sistema de saúde de Cuba é dos melhores do mundo. Argumente-se, de igual modo, que o sistema educacional implantado por Fidel faz arregalar os olhos dos ministros que cuidam do tema em terra brasilis e entre os yankees. Bons argumentos, não pontos de vista. O que Dirceu falou a respeito da DGI não foi nem isso, mas falácia mesmo. Das piores.
Já avisei que detesto teorias da conspiração. Elocubrar que tudo faz parte de uma trama desenhada nos bastidores para que o comunismo infeste o continente americano não é comigo. Vamos aos fatos, e a partir deles forme sua conclusão.
1) Dirceu é um ministro político. Por natureza e ofício. Incumbido do gerenciamento da máquina governamental, de cobrar metas e resultados dos ineficientes ministérios do governo Lula, José Dirceu prefere o telefone, os jantares e almoços, as conversas de bastidores. Especializou-se em articular posições e movimentos na Câmara e no Senado. Ainda não desacostumou. Anda boiando no Caribe desde que Lula tirou a articulação de suas mãos no ano passado, a reboque do caso Waldomiro Diniz, e deixou a função com o pacato Aldo Rebelo (ok, pertence ao partido comunista, mas e daí?).
2) Mauro Marcelo, apesar de nutrir um amor incondicional por microfones e holofotes, sabe o que está fazendo. Mais: tem o apoio incondicional de Lula e Dirceu. Está afinando com as propostas do governo, inclusive as mais sigilosas. É homem de fazer, apesar de falar muito. Transformou o antigo SNI, monstro de sete cabeças que perseguiu barbudos e revolucionários, em um dos poucos pontos de apoio e informação do presidente da República. As falhas, os desencontros, são perdoados agora. E Lula confia nos relatórios carimbados que recebe do delegado.
3) A DGI especializou-se em disseminar o marxismo pelo continente americano. Fez a segurança pessoal de Salvador Allende, o que não impediu Pinochet de disparar algumas bombas endereçadas a ele contra o palácio em que despachava. Enviou homens, muitos homens, a Angola, para auxiliar insurgentes comunistas. E Dirceu me vem dizer a Merval Pereira que a DGI é uma das melhores do planeta porque muito procurada pela CIA, porque especialista em tráfico internacional de drogas.
4) Bem, em parte Dirceu tem razão. Já foram dois os chefes da DGI que deixaram o posto por ligações com o narcotráfico. Imagine a força das Farc, que não concordam com o tráfico, mas dele se utilizam para custear armas, planos, acampamentos, comida para o dia-a-dia. Muitas das organizações revolucionárias ou terroristas de hoje recolhem vinténs com o narcotráfico, pela pura e simples razão de que são eles os que movimentam a maior soma de dinheiro hoje no planeta. Portanto, sabe tanto a DGI sobre o assunto.
5) Lula demonstra uma necessidade infantil de desvincular-se do poderia econômico dos Estados Unidos, não, não. Não é nada ideológico, parafraseando o anônimo que deu lição a Bill Clinton, é a economia, estúpido. Digo infantil, porque nosso presidente prefere ser o primeiro dos últimos a encaixar-se como o quinto ou sexto entre os primeiros. Daí sua aproximação da China, da Índia, da África. Quer liderar os pobres e subjugados ao extremo da troca comercial, um outro mundo paralelo impossível, porque vai contra o livre comércio que hoje não é apenas uma realidade, mas o trampolim que Lula pretende usar para pular mais alto.
Atiça a curiosidade pensar por que diabos Mauro Marcelo e Dirceu, que tirou boas férias na ilha cubana em janeiro passado, iniciam a aproximação de Fidel com o Mercosul e com os Estados Unidos neste momento. E por que diabos não estão a cuidar de assuntos mais importantes, em especial neste tópico específico.
Se tanto se esforçam parar tornar Cuba palatável aos olhos do mundo, por que não gastar um pouco de energia para tornar o resto do planeta assimilável à visão de Fidel?
Em termos simples: não se assassinam dissidentes políticos, não se deixa mofar em cadeias imundas as pessoas que pensam diferente. Não se fuzilam aqueles que fogem do garrote. Não se ilude a população inteira de um país com mentiras em jornais oficiais. Até nos livros de história, as mentiras costumam ocupar páginas menos nobres.
Vida inteligente
Por falar em Cuba, fui presenteado com um desses ótimos livros que fascinam desde a primeira página. Chama-se Cuba Libre, assinado por Elmore Leonard, escritor norte-americano. Impressiona pela narrativa.
Sabe aquela sensação: você deixa cair no chão o saco de pipocas no meio do filme. Baixa para pegar e quando volta os olhos à telona sente que perdeu parte do enredo. Sabe? A história continua acontecendo, não dando importância às suas pipocas ou piscadelas.
A prosa de Elmore Leonard é assim. Percebe-se que a trama vem se desenrolando sem dar importância ao narrador, que por sua vez, acelera nas letrinhas para contar o que consegue ver. Ótimo e estas Esquinas recomendam.

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