Domingo, Abril 17, 2005

Dominando o mundo

Chega a tanto a desfaçatez do PT, nascido e embalado na oposição, tornou-se governo mas não largou o osso. Ocupa todos os espaços, reclama ainda de perseguição, implementa um triturador de consciências e crê estar fazendo o melhor para o Brasil. Impedindo qualquer voz contrária.

No fim da década de 1970, juntaram-se parte da classe média, artistas, sindicalistas, boa parte do clero, intelectuais e a isso deu-se o nome de Partido dos Trabalhadores. Conhecedores das mazelas do povo e críticos à ordem das coisas, engajaram-se e recrutaram rapidamente, crescendo a taxas mais velozes que a da economia que patinava. Por dever de consciência e obrigação de caráter, assumiram a oposição. Sabiam dos problemas, diziam ter soluções várias.

Vinte e tantos anos depois, chegaram ao poder. O terno amarfanhado de sindicalista deu lugar aos charutos e bom gosto do plebeu que virou burguês. Quer dizer, o representante do trabalho na eterna luta contra o capital não tinha carteira assinada fazia muito. Aposentado, assumiu o posto de primeiro servidor público do país. Creia.

Nos dois anos de papado, Luiz Inácio Lula da Silva deu ordens à sua entourage: essa coisa de poder, além de chata, desgasta. Há que se tomar uns goles, assar uns espetos, jogar peladas. E outras tais e pronto. Levando jeito para a oposição, para a barulheira, não renunciaremos a tanto. Mantenha como está. Dá-se um jeito.

Se na ditadura os militares impediam a voz contrária, o PT apoderou-se dela.

Veja bem: passeata de estudantes em Brasília. Protesto, mas de apoio à reforma universitária do governo. A União Nacional dos Estudantes e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas trotam pela Esplanada, fazem barulho, gritam, erguem faixas, slogans. No meio da multidão os de sempre fazem o que sempre fazem: namoram, brincam, passeiam. Festa no circo.

Cena 2: os sindicatos mais engajados do país elegem a diretoria da Central Única dos Trabalhadores, apêndice do PT. Eis que seus dirigentes concedem entrevistas, apelam a lobby no Congresso. Todo o esforço para proteger seus filiados: a reforma trabalhista proposta pelo governo deve passar.

Cena 3: Eleição da mesa diretora da Câmara dos Deputados. Digladiam-se dois candidatos, seus defeitos e (poucas) qualidades enaltecidas em propagandas internas ou material mal feito pendurado em postes da Esplanada. Ambos do PT. Situação e oposição.

Cena 4: Quase mil sem-terra invadem a sede do Ministério da Fazenda em Brasília. Passam o dia batendo tamborins, pedindo reunião com o presidente da República, criticando a política econômica. Querem o fim do bloqueio de verbas. Querem, pedem, exigem. Às seis badaladas noturnas, concedem entrevista. Não são contra o governo, mas a favor. Lula está no caminho certo, Palocci é que o leva para o mal.

Quando um partido como o PT atinge o Planalto, cria-se uma ordem confusa das coisas na política nacional. As milhares de páginas de revistas e jornais, as horas e mais horas que ocuparam na televisão como os grandes baluartes da ética não foram a toa. Seus alvos continuam aí, caciques regionais, corruptos, suspeitos. Estão todos no Congresso. Quase todos sentiram a unha do PT na carne, ao menos 300 na Câmara, os picaretas criticados por Luiz Inácio.

Quem os credencia para, agora, erguer a voz contra o governo? Ninguém. Quase todos têm passado negro, esquisito e suspeito. Sobra para o próprio PT segurar a dialética monofônica.
Eliane Cantanhêde já disse na Folha que é ótimo o Brasil ter atingido um grau de tolerância a ponto de militares serem admirados. Jornalistas se inscreverem em concurso para a Polícia Federal. Na minha humilde e desnecessária opinião, trata-se de falta de cultura política.

Tolerância é um buraco mais embaixo.

Quando aos microfones e às manchetes reserva-se lugar apenas para um grupo as coisas ficam ruins. No caso do PT, uniram-se a tendência stalinista do campo majoritário do partido, o espaço vago no cenário nacional e uma vontade inconteste de dominar o mundo. Na minha terra chamamos isso de loucura. Mas vai saber.