Domingo, Julho 24, 2005

Elocubrando

Não lembro onde li que à História interessa varrer alguns momentos para debaixo do tapete. Ou qualquer coisa assim. Obviamente lembrei da sujeira sobre o PT que se tornou rotina nos diários brasileiros. Vendo de longe, há uma sensação estranha.

Por mais jovem que seja a democracia brasileira, conseguia sentir que estava participando ativamente de todos os processos enquanto trabalhava em Brasília. Agora, vem esse sentimento esquisito de que tudo escapa das minhas mãos, de que não tenho o que fazer. Mais: que qualquer ato meu em nada afetará o processo.

Obviamente, deriva de uma arrogância e prepotência "naturais" de repórter.

Estou pensando desde ontem na possibilidade de Lula deixar o cargo. Retirar-se da cena política, coisa e tal. E surgiram algumas conclusões, talvez nada que interesse, mas vamos a elas.

Na minha humilde e desnecessária opinião, o presidente deveria terminar o mandato. Ainda não há nenhuma prova concreta de sua participação direta no caso mensalão, por mais que provas concretas desse tipo de coisa não existam. Ademais, todo o esquema visava um pragmatismo exacerbado de aprovar o que ele considerava melhor para o país, sabe Deus o que isso significa, e que, no fim das contas, a maioria do eleitorado aprovou como seu então programa de governo durante a campanha.

Muitos dizem que a crise atual é pior do que a de Collor. Talvez seja, por trazer a público algo que todos imaginavam corriqueiro. Mas FHC foi preservado na compra de votos para a reeleição e no escândalo grampo do BNDES-privatizações.

O meu ponto é o seguinte:

- Em 1992, com a ditadura e a as mãos atadas do cidadão ainda ressoando na cabeça dos brasileiros, era importante para a democracia brasileira verificar que o eleitor conseguia eleger e derrubar um presidente. Foi uma redenção depois de décadas sem participação política alguma. Um êxtase democrático na plenitude. Digo isso porque certamente a maioria da população não tomou conhecimento de todo o esquema montado por PC Farias. Muitos ouviram dizer em conversas de botequim, ouviram uma frase ou outra no Jornal Nacional. Somente um grupo pequeno da elite compreendeu toda a lama que Collor jogou no país.

Mas para uma democracia complexa e ressuscitada como a do Brasil em 1992, era importante derrubar o presidente. Isso consolidava o processo, permitia que o povo se desse conta do quanto ele podia avançar.

E talvez hoje isso não seja necessário. Ou mais ainda, talvez hoje seja necessário permitir que Lula termine o mandato.

O julgamento do eleitor, no caso de Lula, deveria ser, novamente na minha humilde e desnecessária opinião, nas eleições de 2006. Depois de anos sem decisão política subjugado pelos militares, uma tentativa fracassada de dar início a dias melhores, com Collor de Melo, e a continuidade de oito anos de uma administração aprovada pela maioria, com FHC, tivemos uma alternância no modelo político. O país elegeu um partido cuja visão parecia ser diferente do status quo, que propunha mudanças.

Foi a primeira vez que isso aconteceu na história brasileira. E o presidente eleito recebeu o cargo de outro, também legitimamente eleito, em um processo de transição minimamente transparente, noves fora os detalhes de sempre.

Agora, a democracia novamente enfrenta um teste importante. Talvez seja mais necessário para nosso futuro como país permitir o naufrágio das propostas de Lula, sem expulsa-lo do Planalto, do que interromper o processo. Se tais denúncias, cujas provas repito são quase impossíveis de se conseguir, forem absorvidas pela maioria da população, Lula e seu PT serão banidos do Planalto. Senão, enfrentarão um segundo mandato imprevisível.

Elocubrando mais ainda: digamos que a população volte ao modelo neoliberal de FHC e companhia. Digamos que haja outra transição de poder civilizada. E que depois de um terceiro mandato tucano o povo novamente escolha mudar e vote em outro. Ora, meus caros, é isso que acontece na democracia, n?est pas?

Se à História interessa apagar o PT e jogar sua sujeira para debaixo do tapete, interrompendo um processo político, por que não desafiar o que se espera e obrigar Lula a enfrentar os 365 dias de 2006 no cargo?