Quinta-feira, Julho 14, 2005

O foco da notícia

Investigadores, como policiais, procuradores, promotores, fiscais, e mesmo assessores de imprensa, sempre se preocupam em descobrir quem agiu como fonte de determinada informação, quando a publicação dela em um jornal traz dificuldades de ordem prática no dia-a-dia.

Foi o que ocorreu por aqui com a divulgação da identidade de uma agente disfarçada da CIA, a ex-poderosa agência central de inteligência do governo norte-americano. No ano passado, um colunista do Washington Post disse que seu marido, um embaixador dos EUA, obtinha informações sobre armas de destruição em massa com a própria, Valeria Plame.

Os colegas correram pela notícia e descobriram o nome dela. Mathew Cooper, da revista Time, e Judith Miller, do NY Times, publicaram a notícia, com nome e sobrenome. Até aí, faz parte do jogo. A Casa Branca negou que qualquer empregado seu estivesse enrolado no vazamento. E a procuradoria arregaçou as mangas para descobrir de quem se estava falando.

O grande erro de todos que pressionam jornalistas por sua fonte sigilosa demonstrou-se mais tarde. Em minha curta experiência acompanhando a Polícia Federal e o Ministério Público do Brasil, descobri que o mais difícil não é obter a informação, mas comprová-la. Na maioria das vezes, e isso está previsto na maior parte dos manuais de redação do mundo inteiro, a estatura da fonte e o histórico de informação críveis que ela dá já são suficientes para dar legitimidade ao que diz. O que não deixa de ser um tremendo risco para os jornalistas, não é só porque um diretor da PF sempre dá boas informações e ocupa um cargo na cúpula da instituição que podemos publicar absolutamente tudo o que ele diz.

Mesmo assim, na correria da rotina, quando obtemos uma confirmação de uma fonte de alto escalão, mastigamos os detalhes e enviamos o texto para a rotativa. No dia seguinte, não é raro ver que o próprio desmente publicamente em uma entrevista coletiva horas depois de te congratular por telefone.

Esses desmentidos oficiais acabam gerando nos assessores de imprensa e investigadores a falsa sensação de que a reportagem não existe. Foi inventada. No caso de Valerie Plame, nem isso. Todos sabiam que a história estava correta, mas não quem foi o responsável por alertar os jornalistas.

Uma corte daqui determinou que Miller, do NY Times, e Cooper, da Time, dissessem quem era a fonte da informação. Até aí, uma loucura para um país cuja primeira e mais importante emenda à Constituição fala sobre liberdade de expressão. O mundo está de ponta cabeça, aproveitou-se o juiz.

Miller foi para a cadeia. Passará uns quatro meses encarcerada por respeitar seus princípios. Faz sentido, e é fácil dizer que em seu lugar qualquer jornalista de caráter faria o mesmo. Se for para ficar aqui fora sem valores, regras e credibilidade com suas fontes, melhor tirar férias numa cela.

O mais interessante da história toda vem agora: o autor do vazamento, segundo um e-mail que consta como prova no processo, é nada mais nada menos que Karl Rove, um dos auxiliares diretos mais próximos de George Walker Bush. O advogado de Rove permitiu a Cooper, que testemunhou ontem perante o júri, a divulgação de tudo o que o jornalista entendesse necessário.

Divulgada a fonte, muda o foco da notícia.

Descobriu-se que não se tratava de nenhum araponga da CIA insatisfeito com a Casa Branca, ou um membro da comunidade de inteligência que desejava sabotar o governo Bush. Mas um homem de dentro, do núcleo do governo. Qual o interesse dele?

Como o marido da agente Valerie Plame agitava os jornais com negativas sobre as armas de destruição em massa no Iraque, dizia que não fazia sentido e que os discursos de Bush eram falsos, interessava à Casa Branca desacreditar publicamente as críticas. Por mais absurdo, porque no fim das contas provou-se que Bush estava realmente errado.

Sobrou para o porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan. No ano passado, havia zombado das suspeitas sobre Rove. Classificou como ridículas as insinuações e disse claramente que se houvesse alguma participação do auxiliar de Bush no vazamento, o chefe ficaria feliz em demiti-lo. Quando veio a tona o e-mail e as suspeitas ainda mais fortes sobre Rove, o porta-voz calou-se.

A Casa Branca não emitira opinião sobre uma investigação em andamento. Perguntado se mantinha o que havia dito meses atrás, repisou o discurso decorado. Vamos aguardar o fim das investigações.

Bem, se a todos interessa saber quem é a fonte da informação em vez de questionar se a reportagem é verdadeira ou falsa, colham agora suas batatas. O mesmo acontece em qualquer outro lugar, se damos início a esse tipo de investigação.

Jornalista costuma ser apenas o meio de transporte da comunicação. Se algum governo, e isso vale para qualquer governo, fica furioso com uma reportagem e decide processar o jornalista para descobrir sua fonte, pode ir se preparando. Não são os jornalistas que possuem informação, mas os próprios auxiliares do presidente, de seus ministros, pessoas com quem os governantes convivem de perto e em quem confiam.

O sigilo da fonte não serve para proteger o jornalista. Mas para assegurar que a informação virá a público sem prejudicar quem contou o segredo, apenas aqueles que fizeram algo errado. Uma bela lição para a democracia norte-americana. Tomara que o Brasil a copie neste caso lamentável. E que pelo menos o governo Luiz Inácio Lula da Silva, com seu batalhão de assessores de imprensa, responda às denúncias em vez de se preocupar com quem disse o que para o repórter tal.

Depois de 30 e poucos anos, descobrimos que o Deep Throat, ou o Garganta Profunda, fonte do Washington Post durante a crise do governo Nixon, era o segundo homem na hierarquia do FBI. Quem mais teria informações tão importantes? Diferentemente do caso de Valerie Plame, os jornalistas permaneceram firmes, a fonte continuou secreta, o presidente caiu, os repórteres ganharam o Pulitzer, Garganta virou personagem de filme e agora vai ganhar milhões com seu livro.

Deixando a ingenuidade de lado, por mais que esse caso seja exemplo de capitalismo e da indústria da mídia, melhor assim do que ver prisões confinando repórteres somente pelo tamanho de seu caráter.

Sabe o que é mais irônico? Hoje o USA Today diz que talvez Valerie Plame estivesse o tempo todo em DC, desde junho de 1997. A divulgação de seu nome, portanto, não seria crime nenhum de acordo com as leis norte-americanas. Belo motivo para um recurso do advogado da repórter do Times...