Sexta-feira, Julho 22, 2005

Sobra o Itamar...

Sempre difícil para um jornalista confessar predileções políticas, esportivas, culturais ou coisa que o valha, ainda viceja aquela falsa noção de que independência e isenção significam mentir descaradamente ou omitir silenciosamente o que pensa ou sente. Levando isso em conta, confesso um pouco de decepção e frustração. Lógico que vou falar um pouco do PT e de seus caciques, sim, hoje em dia podemos usar o malfadado adjetivo para descrever algumas das lideranças do partido.

Decepção com políticos é algo normal. Collor não conta, pois já se via desde muito antes que o sujeito não estava ali para brincadeira, que representava o que de pior poderia haver na política nacional e do Nordeste. Ainda por cima, contava com o apoio maciço de uma Rede Globo ainda acostumada ao monopólio da verdade adquirido durante 20 anos de ditadura militar. Da emissora que se fala aqui, não de alguns de seus profissionais que ainda hoje são exemplos a serem copiados humildemente por profissionais em início de carreira, como este aqui. FHC aderiu antes de chegar lá. Por sua história, pelos livros que havia escrito e os pensamentos que desenvolveu, poderia se esperar mais. Que não fechasse aliança com Antonio Carlos Magalhães um ano antes de sua posse por exemplo. Pois é. O primeiro a abraçar o candidato foi "Painho". Diga-me com quem andas e te direi o que farás com um país machucado.

Por isso não foi enorme a surpresa de ver as privatizações mal conduzidas, o desprezo pela parte social, a submissão em demasia às regras, ao Consenso de Washington (lembram-se?). E tivemos então, em 2002, a eleição de Lula. Desembarquei em Brasília em junho de 2002. Havia, como em todos os outros inícios de campanha presidencial desde 1989, um certo favoritismo em relação ao petista. Dizia-se que sua eleição dependeria muito mais da competência tucana do que suas propostas. Vimos as propagandas brilhantes de Duda Mendonça, os olhos azuis de Chico Buarque, o medo de Regina, as grávidas em roupas brancas. Emocionante, democracia a 220 volts, todos os dias uma grande notícia, um sentimento saudável de ser brasileiro mesmo sem Copa do mundo, que aliás foi naquele mesmo ano e a seleção canarinho levou o caneco. Tudo ia bem. Bem demais.

Já na transição, com a discussão da política econômica, o absurdo e inútil superávit primário de 4,25% do PIB, o texto das reformas, as alianças inimagináveis com os 300 picaretas, Sarney mandando e desmandando, ACM voltando aos spots, a ingenuidade marqueteira da Polícia Federal, absoluto descaso com a Educação, reforma agrária no papel, direitos humanos baseados em notas de repúdio, falta de dinheiro para saneamento básico e construção de casas, aparelhamento de bancos estatais pelo partido. Tudo isso foi mostrando que os petistas não eram bem o que se imaginava, ou o que Duda Mendonça havia vendido na campanha.

Paciência, ao menos a democracia seguia em frente, havia alternância de poder, precisamos passar por isso muitas vezes, o país melhora, dizem.

E veio o caso Waldomiro Diniz (lembram-se?). Pois é. Não quero advogar a defesa de um sujeito que consegue mentir durante uma década para a própria esposa e que passou por duas cirurgias plásticas apenas para manter sua vida política. Nem é meu papel julgar o que ele fez antes da Casa Civil, esse José Dirceu de Oliveira. Mas um escândalo como o de Waldomiro Diniz terminar nas mãos de um delegado incompetente e boquirroto foi a gota d`água. Por sinal, o inquérito ainda está em andamento. Um ano e meio depois _fez aniversário no dia 13 de agosto.

Até aí, porém, havia ainda a impressão de que se cometia erros monumentais, pelo menos Dirceu agia em interesse do país, não procurava se locupletar, mas aprovar as reformas, dar andamento ao governo, mal e tropegamente. O excesso de um pragmatismo político visando fins históricos que justificassem meios execráveis. Fazia parte da política? Era a maneira certa? Novamente, a história julgaria tais delitos dali a dois anos, na próxima eleição.

Agora, vem essa história do mensalão. Acabo de ler uma análise do Financial Times sobre o assunto (leia versão da Folha Online aqui). E eles são pródigos em descrever os protagonistas. José Genoino, que, reza a lenda, pegou em armas contra os militares, deixou a presidência do partido. O mesmo Dirceu se segura para não perder um cargo. Por quê? Que mais ele espera fazer no Congresso?

As velhas raposas do PFL se eriçam, clamam por Justiça e Ética, como se não fosse risível. Ao menos na oposição, sem denúncias porque não havia chegado à presidência, o PT podia bradar nos microfones, ocupar a tribuna e prometer dias melhores. Agora nem isso. Estamos todos com os parafusos tortos, jornalistas, políticos, sociedade. Cabe aos fariseus tratar as chagas?

Até 2004 ainda acreditava no PT e em alguns de seus líderes. Em Lula menos, por cautela natural, mas o sujeito andava em boas companhias. De lá pra cá, só descemos a ladeira. E abram o olho: com a enorme possibilidade de um processo criminal, o sr. Márcio Thomaz Bastos, advogado por 45 anos e razoável ministro da Justiça, já cantou a dica, leva-se tudo para a Justiça Eleitoral. Algumas multas e sanções administrativas depois dá-se trato à bola e recomeça o jogo. Ninguém na cadeia.

De longe, é ainda mais triste ler o noticiário. Ver como os jornalistas se agarram aos fatos e ao palpável porque não sabem o que dizer. Repisam e repetem as decepções, como se toda a sociedade só conseguisse pensar nisso. Até a Sheila Mello, uma bunda falante, escreveu em seu blog que não agüenta mais isso.

Depois de tanto lero-lero, faltou falar de um presidente. Itamar Franco, quem diria, debelou a inflação, topou um governo de coalizão nacional, elegeu seu sucessor e passou incólume pelo Circo Brasil. Acusem-no de indiscrição com as namoradas, ao menos crime menor do que destruir a esperança de uma geração de brasileiros.